Revista de Agricultura Urbana
Urban Agriculture Magazine
RUAF - Centro de Recursos em Agricultura e Silvicultura Urbanas

Perspectivas da agricultura urbana orgânica em Cuba

Esther Roycroft-Boswell - ove-enquiry@hdra.org.uk
Coordenadora de Consultoria Internacional
HDRA, Coventry, Reino Unido

Nos tempos da União Soviética, Cuba dependia grandemente da importação massiva dos alimentos básicos consumidos na ilha. Também a agroindústria dependia basicamente das importações de milhares de toneladas de fertilizantes químicos, herbicidas e pesticidas, além de rações balanceadas para animais e de combustível para maquinaria agrícola e transporte da colheita. Tudo isso terminou com o colapso da União Soviética em 1989/91. Nesse período, o país perdeu mais de 60% de seu comércio exterior. A fome e a desnutrição em grande escala retornaram à ilha, e Cuba enfrentou uma crise econômica de proporções consideráveis.

Os Estados Unidos responderam a esses eventos endurecendo ainda mais o bloqueio econômico que impõem à Cuba há mais de 40 anos, com a esperança de acelerar o “inevitável” colapso do governo. Durante esse período, o governo pôs em andamento várias medidas para produzir os alimentos necessários para a população cubana. A enorme tarefa que enfrentava era dobrar a produção local de alimentos usando apenas a metade dos insumos químicos até então disponível.

Uma verdadeira Revolução Verde

Empurrado pela perda dos agroquímicos importados e pressionados pela crescente conscientização dos danos ao meio ambiente causados pela agricultura convencional, o governo cubano buscou métodos de cultivo orgânico sustentável para fazer ressuscitar e desenvolver a produção alimentar doméstica e para aproveitar melhor os recursos naturais do país. Alguns poucos cientistas agrícolas cubanos já vinham realizando pesquisas com agricultura orgânica e promovendo os métodos sustentáveis de produção desde os anos 70, e foi para eles que o governo se dirigiu em busca de orientação.

Grandes extensões de terra dedicadas até então à produção de safras para exportação, para a obtenção de divisas, foram convertidas à produção de alimentos. Incentivos do governo estimularam as pessoas desempregadas nos grandes centros urbanos a regressarem ao campo e trabalharem a terra. Foram criados bois em grande quantidade para substituírem os tratores no preparo do solo agrícola e para transportar as colheitas até pontos de concentração. Foram implementados métodos orgânicos tais como a rotação dos cultivos, a elaboração dos compostos, o aumento da biodiversidade dos cultivos, a proteção dos predadores naturais das pragas agrícolas, bem como a conservação da água e do solo.

Os institutos de pesquisa foram encarregados de desenvolver técnicas mais sofisticadas como a compostagem acelerada com a presença de minhocas, os inoculantes do solo e biofórmulas para várias finalidades. Foram abertos mais de 200 centros para a produção e difusão de biopesticidas e de vetores para o controle biológico de pragas, dirigidos por graduados universitários, quase todos filhos de agricultores locais. A partir de 1996, em Havana, as posturas municipais somente permitem os métodos orgânicos na produção local de alimentos.

Incentivos para a agricultura orgânica urbana

Para a grande maioria dos cubanos, os alimentos provinham da quitanda ou do supermercado. A produção de alimentos era considerada parte da vida dos camponeses, que haviam ficado para trás enquanto os setores populacionais mais dinâmicos haviam se mudado para as cidades. Então, para estimular a produção alimentar em pequena escala nas áreas urbanas, o governo distribuiu terras que não estavam sendo utilizadas a todos aqueles que quisessem cultivá-las.

Havana, com 2,2 milhões de habitantes, um quinto da população total da ilha, era uma área prioritária para a produção urbana de alimentos. A Secretaria de Agricultura local criou um Departamento de Agricultura Urbana para prestar assistência aos novos horticultores. Essa assistência é prestada por extensionistas e por produtores habilitados, baseados nos vários distritos que compõem a cidade, dinamizada pelo apoio direto do governo aos esforços comunitários. O Departamento é também responsável pelas “Casas de Sementes”, que fornecem sementes, ferramentas, biofórmulas e produtos variados aos agricultores urbanos. Quase que da noite para o dia, foi criada uma nova cultura hortícola urbana. A agricultura orgânica, foi especialmente promovida pela Associação Cubana de Agricultura Orgânica, que reúne grande número de pesquisadores do governo e extensionistas.

Perspectivas futuras

Houve quem duvidasse se o governo continuaria apoiando a longo prazo um enfoque mais sustentável para a produção de alimentos, e alguns ainda acham que o governo mudará de enfoque se o embargo for levantado e se os agrotóxicos e adubos químicos estiverem de novo facilmente disponíveis. Porém a adoção massiva da produção orgânica teve um enorme impacto e parece que seu apoio já se difundiu por todo o governo, e não se mantém somente devido à decisão de uns poucos. A partir de 1998 o Departamento de Agricultura Urbana foi integrado ao Ministério da Agricultura, com abrangência nacional, e desde então vem divulgando crescentemente os métodos orgânicos de produção.

As hortas nas escolas e/ou mantidas por elas em terrenos próximos tornaram-se mais comuns, na medida que a produção local de alimentos e os temas ecológicos se tornam parte regular do currículo escolar. A maioria das moradias rurais produz seus próprios alimentos básicos, incluindo vários feijões, raízes e tubérculos tradicionais. O interesse pelas formas sustentáveis de geração de energia e pelas tecnologias apropriadas tem levado à criação, por toda a ilha, de centros de experimentação e demonstração, bibliotecas itinerantes e escolas de extensão de técnicas agrícolas apropriadas.

Atualmente, os agricultores cubanos produzem para si e suas famílias e também para os consumidores que sabem que os alimentos foram produzidos organicamente e valorizam esse fato. Entretanto, para estimular as exportações de produtos mais valiosos, como as frutas cultivadas organicamente, Cuba decidiu desenvolver um método próprio de certificação orgânica com a colaboração da Soil Association (Reino Unido), da Federação Internacional de Movimentos de Agricultura Orgânica, e de outras entidades internacionais. Uma vez que a certificação orgânica seja possível, os agricultores estarão habilitados a aumentarem seus rendimentos exportando e também vendendo seus produtos etiquetados como orgânicos aos turistas, a preços especiais.


Tradução: Joaquim Moura - críticas, comentários e sugestões: jmoura@hotmail.com e/ou www.agriculturaurbana.org.br