Revista de Agricultura Urbana
Urban Agriculture Magazine
RUAF - Centro de Recursos em Agricultura Urbana e Segurança Alimentar

Revista de Agricultura Urbana
Edição nº 14 - Julho de 2005
Produção Aqüícola Urbana
Aqüicultura Urbana e Periurbana


Prezados Leitores,

Esta edição da Revista de Agricultura Urbana foi financiada pelo PAPUSSA.
O projeto PAPUSSA - Periurban Aquatic Production Systems in South-East Asia (Sistemas de Aqüicultura Periurbana no Sudeste Asiático) objetiva verificar a situação e o impacto dos sistemas de produção aqüícola em quatro cidades (Bangcoc, Phnom Penh, Ho Chi Minh e Hanói). Visite também www.papussa.org

Apesar da crescente atenção dada à agricultura urbana, a importância e o potencial da produção de peixes e de plantas aquáticas dentro e ao redor das cidades continuam praticamente desconsiderados mesmo entre profissionais ligados às questões do desenvolvimento.

O termo “aqüicultura urbana” abrange uma ampla variedade de atividades. A produção de peixes e de plantas aquáticas é muito difundida em muitas cidades do sudeste asiático e, em menor extensão, na África e na América Latina. A aqüicultura está intimamente ligada à sobrevivência de um número significativo das famílias de baixa renda urbanas, e inclui várias atividades, desde sistemas de produção bastante extensivos até outros altamente intensivos, tanto de peixes quanto de plantas aquáticas comestíveis.

Entretanto, a maioria dos empreendimentos aqüícolas é formada por sistemas semi-intensivos, freqüentemente usando águas servidas oriundas da cidade mais próxima como fonte de nutrientes para aumentar a produção.

Este número da Revista de Agricultura Urbana apresenta os resultados de pesquisas conduzidas pela PAPUSSA (*), complementados por artigos sobre aqüicultura periurbana em outras regiões e continentes de interesse para toda uma audiência não especíica ificamente ligada à aqüicultura popular.

No geral, as conclusões até agora oriundas do projeto PAPUSSA destacam tanto as consideráveis diferenças quanto as notáveis semelhanças verificadas nas quatro cidades estudadas, conforme é resumido no editorial desta edição. Os possíveis cenários para o futuro dessas comunidades estão descritos em vários artigos.

Baseados nas conclusões preliminares apresentadas, conclui-se que o desaparecimento de alguns sistemas produtivos nas quatro cidades é inevitável diante da crescente urbanização das zonas periféricas. Porém, devido à grande demanda e ao imenso consumo de plantas aquáticas nessas cidades, especialmente o espinafre-d’água, produzido em praticamente todas elas e muitas vezes adubado com águas servidas – pode-se esperar a continuação da produção aqüícola nessas cidades. Isso irá depender das habilidades dos planejadores urbanos para coordenar e desenvolver estratégias que separem efetivamente os efluentes industriais das águas servidas domésticas.

Outros artigos vindos da África e da América Latina ilustram o potencial para a produção de peixe, em escala relativamente pequena, no nível comunitário ou mesmo familiar.

Todos os leitores estão convidados a contribuir para as edições futuras da Revista de Agricultura Urbana. Os artigos devem conter até 2.500 palavras e ser acompanhados, de preferência, por ilustrações (digitais e de boa qualidade), referências e um resumo. Apesar de cada edição ter o foco em um tema selecionado, nós aceitamos com prazer contribuições sobre qualquer assunto ligado à agricultura urbana. Os artigos serão examinados para aproveitamento por uma equipe editorial composta pelo editor responsável ligado ao RUAF e por um consultor técnico-científico externo convidado.

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Aguardamos, como sempre, o seu contato, contribuição ou comentários,

Os Editores

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Sumário

Editorial
Sistemas de aqüicultura em Bangcoc
Situação atual da aqüicultura periurbana em Hanói
Sistemas periurbanos de aqüicultura em Phnom Penh
Uma produtora de espinafre-dágua no lago de Beoung Cheung Ek, em Phnon Penh
Sistemas de produção e comercialização de produtos aqüícolas em Ho Chi Minh
O futuro dos sistemas de aqüicultura periurbanos no sudeste da Ásia
Planejando o futuro da produção aqüícola nos alagados de Kolkata oriental
O fim da aqüicultura periurbana baseada em águas servidas?
Doenças de pele entre pessoas usando águas servidas urbanas em Phnom Penh
O uso de águas servidas tratadas das lagoas de sedimentação em San Juan, Lima
Aqüicultura familiar em Cuba
Aqüicultura urbana integrada em Cuba
O papel da aqüicultura na produção de alimentos para as cidades africanas
A criação doméstica de tilápias em tanques de concreto nas periferias urbanas da Nigéria
Aqüicultura periurbana em Gana
Agricultura urbana em Istambul, Turquia
Livros de interesse
Sítios de interesse
Eventos
Oficinas RUAF sobre planejamento de ações e formulação de políticas envolvendo diversos interessados


Editorial
Will Leschen David Little e René van Veenhuizen
O cultivo de peixes e de plantas aquáticas comestíveis é muito difundido nas cidades do sudeste asiático e, em menor extensão, da África e da América Latina. A produção aqüícola está intrinsecamente ligada à sobrevivência de um número significativo de famílias urbanas de baixa renda. Existe uma grande variedade de atividades, incluindo os cultivos intensivo e extensivo tanto de peixes quanto de plantas aquáticas. Entretanto, os sistemas de produção envolvidos são geralmente semi-intensivos, utilizando freqüentemente águas servidas urbanas como uma fonte importante de nutrientes para aumentar a produção.
A expressão “planta aquática comestível” será usada ao longo desta edição para denominar as plantas verdes comestíveis “water spinach” ou “morning glory” (Ipomoea aquatica) – espinafre-d’água; “water mimosa” (Neptunia oleracea), “water cress” (Rorippa nasturtium-aquaticum) e “water dropwort” (Oenanthe stolonifera), cultivadas na água.

Sistemas de produção aquática de alimentos em Bangcoc
Ruangvit Yoonpundh, Varunthat Dulyapurk e Chumpol Srithong
Cerca de 10 milhões de pessoas residem nas comunidades densamente povoadas da região metropolitana de Bangcoc. Como resultado, a demanda por alimentos tem aumentado dramaticamente. Entre as várias espécies de plantas comestíveis disponíveis, os consumidores urbanos apreciam os produtos aquícolas como o espinafre-d’água, a “water mimosa” e os peixes de água doce. Esses produtos são produzidos principalmente nas áreas periurbanas ao redor de Bangcoc.

A situação atual da produção aqüícola periurbana em Hanói
Nguyen Thi Dieu Phuong e Pham Anh Tuan
Com um total de 5.100 ha de superfície aquática, Hanói tem um grande potencial para o desenvolvimento da aqüicultura, não apenas da aqüicultura tradicional praticada em tanques, reservatórios, lagos urbanos, campos de arroz e áreas de despejo de águas servidas, mas também da aqüicultura integrada ao turismo e ao lazer. Por causa da urbanização, a aqüicultura em tanques nas áreas urbanas de Hanói está decrescendo, enquanto que nas áreas baixas periurbanas, os antigos campos de arroz estão sendo convertidos em áreas de produção aqüícola, tanques piscícolas e sistemas integrando aqüicultura e agricultura.

Sistemas periurbanos de aqüicultura em Phnom Penh
Kuong Khov, Sok Daream e Chouk Borin
Os numerosos lotes localizados nas áreas alagadiças na periferia de Phnom Penh são fontes importantes de plantas aquáticas comestíveis e de peixes para a cidade e outras regiões do Camboja. Essas áreas são fertilizadas com águas servidas domésticass despejadas pela cidade. As atividades relacionadas a esses sistemas de produção estão intrinsecamente ligados com os meios de vida de muitas pessoas pobres que vivem dentro e ao redor da cidade.

Uma produtora de espinafre-dágua no lago de Beoung Cheung Ek, em Phnon Penh
Kim Bunthach é uma produtora de espinafre-d’água na vila de Kbal Tumnob, nas proximidades do lago Beoung Cheng Ek, na periferia de Phnom Penh.


Sistemas de produção e comercialização de produtos aqüícolas na cidade de Ho Chi Minh
Le Thanh Hung e Huynh Pham Viet Huy
Ho Chi Minh é a segunda maior cidade do Vietnam, localizada na parte sudeste do país. Com uma área de 209.370 ha, HCM é atualmente habitada por quase 6 milhões de moradores permanentes. Cerca de 83,3% da população vive dentro da área urbana, criando uma alta densidade populacional imersa em um ambiente econômico diversificado e dinâmico. A aqüicultura é um componente importante da economia da cidade, principalmente nas áreas periurbanas.

O futuro dos sistemas periurbanos de produção aqüícola de alimentos no sudeste asiático
Jonathan Rigg e Albert M Salamanca
Os sistemas periurbanos de produção aqüícola de alimentos no sudeste asiático estão em transição. Eles estão sempre prestes a serem movidos, ou a ponto de se transformarem em outras coisas. Novas atividades, recursos físicos, agências e instituições, pessoas e infra-estruturas colonizam o espaço periurbano, e podem substituir ou remover as pessoas, instituições e atividades, ou levá-las a responderem e a se adaptarem às situações em transição.

Planejando a produção aqüícola nas áreas alagáveis de Kolkata Oriental
Nitai Kundu, Nina Halder, Mousumi Pal, Sharmistha Saha e Stuart W Bunting
A aqüicultura com águas servidas, como é praticada em Kolkata Oriental, já atraiu muita atenção internacional como um sistema-modelo para a reutilização das águas servidas urbanas e reciclagem de recursos. No presente, o ecossistema multifuncional nas áreas alagáveis cobre aproximadamente 12.500 ha, e compreende principalmente 254 centros de piscicultura utilizando águas servidas, terras agrícolas, lotes dedicados à horticultura e áreas residenciais. Ele constitui um sistema único de reciclagem de recursos, nos quais os nutrientes são extraídos das águas servidas da cidade por meio da produção de peixes e da agricultura.

O fim da aqüicultura baseada em águas servidas?
Peter Edwards
Recentes pesquisas de campo realizadas pelo autor em áreas periurbanas de Bangladesh e do Vietnam indicaram que vários sistemas de aqüicultura baseados em águas servidas podem estar com seu futuro comprometido. O principal problema é a disponibilidade de terras, cada vez mais reduzida pelo crescimento constante das cidades.

Doenças de pele entre produtores que utilizam águas servidas em Phnom Penh
Wim van der Hoek, Vuong Tuan Anh, Phung Dac Cam, Chan Vicheth e Anders Dalsgaard
O maior desafio implicado no uso sustentável das águas servidas na agricultura é otimizar os seus benefícios como um recurso (tanto pela água quanto pelos nutrientes que elas contêm) e minimizar os impactos negativos na saúde humana. Estudos epidemiológicos em variados países verificaram que os maiores riscos para a saúde humana, inerentes ao uso de águas servidas na agricultura e na aqüicultura, são os colocados pelas infecções com vermes parasitas.

O uso de águas servidas tratadas em tanques de sedimentação em San Juan, Lima
Julio Moscoso
O programa de tratamento e reutilização das águas servidas foi iniciado pelo CEPIS há 25 anos, visando contribuir para o melhoramento do sistema de tratamento dos esgotos da região pelo uso de tecnologias que permitam a remoção dos agentes patogênicos e dos materiais orgânicos. Nesse sentido, o CEPIS e outras várias instituições peruanas vêm desenvolvendo uma série de experimentos ligados ao tratamento e reutilização de águas servidas no Complexo Bio-ecológico de San Juan, ao sul de Lima.

Aqüicultura familiar em Cuba
Magaly Coto Coto, Francisco Pérez Taín e Teresa Damas
A aqüicultura é vista em Cuba como um recurso importante para a alimentação de sua população. O Ministério da Indústria Pesqueira – MIP promove a aqüicultura no país desde o nível doméstico (conceito de “aqüicultura familiar”), para melhorar a alimentação das famílias, até os níveis nacional e internacional.

Aqüicultura urbana integrada em Cuba
Ricardo Sánchez, Concepción Carrillo de Albornoz e Jorge Sánchez
Dezenas de milhares de toneladas de materiais orgânicos são coletadas e transferidas diariamente na municipalidade de Playa para os vazadouros de lixo. Desse modo, recursos importantes são perdidos, enquanto que os produtos da decomposição vão contaminar a zona litorânea de Cuba. Além disso, a pesca predatória e ilegal de várias espécies (como o “black sea urchin” e surtos de doenças causam a deterioração dos recifes de coral e a redução dos cardumes. Um projeto de disseminação executado pelas instituições citadas abaixo, com o objetivo de demonstrar para as comunidades urbanas – especialmente para as crianças e os jovens – como pequenas ações, executadas por grupos numerosos, pode beneficiar o ambiente local e nacional e ao mesmo tempo estimular a produção de alimentos e a reciclagem dos resíduos.

O papel da aqüicultura na alimentação das cidades africanas
Krishen Rana, Jide Anyila, Khalid Salie, Charles Mahika, Simon Heck e Jimmy Young
A rápida urbanização da África (cerca de 7 a 10% por ano), o desemprego, a insegurança alimentar nas áreas urbanas e periurbanas e o declínio dos estoques de peixes são questões importantes que precisam ser enfrentadas pelos governos locais e nacionais da região. Essas questões estão ocorrendo em um contexto de transformação que se dá nas forças econômicas e nos padrões de comércio dos mercados nacionais e internacional de alimentos, levando parcelas cada vez maiores de pobres a se envolverem em práticas de agricultura como um meio de vida e recurso para alcançar maior segurança alimentar.

Produção de tilápia em tanques domésticos de concreto nas periferias da Nigéria
J. A. Afolabi, P. B. Imoudu e O. A. Fagbenro
Duas importantes limitações para a instalação de empresas de piscicultura na Nigéria são a falta de capital inicial e a dificuldade para se adquirir a área de terra necessária. O preço do arrendamento de terras aptas para receber os modernos tanques de piscicultura convencional tornou-se proibitivo e inviável, especialmente nos centros urbanos por causa da competição e conflitos com os outros usos do solo típicos das cidades.
A aqüicultura doméstica e familiar, de fundo de quintal, nas áreas periurbanas foi recomendada na Nigéria como um método econômico de se produzir peixe e melhorar a nutrição da população. O tanque doméstico de concreto foi desenvolvido como um tipo de equipamento fechado, alternativo e acessível aos piscicultores de fundo de quintal.

Aqüicultura periurbana em Gana
Dr Eddie Kofi Abban e Mr. Ransford Cudjoe
A piscicultura foi adotada e estimulada com entusiasmo no final da década de 1970 pela Assembléia Municipal de Accra (AMA) como uma alternativa de geração de renda.
Ela era vista como uma parte importante da “Operação Alimente-se” (OAS) que foi lançada pelo governo da época. Foram feitos vários esforços para desenvolver fazendas piscícolas em toda as áreas disponíveis que não pudessem ser usadas para agricultura ou para edificações, na época, e onde houvesse água disponível. Alguns dos piscicultores obtiveram sucesso, mas, pela falta de treinamento e de informações, a maioria ficou às voltas com problemas de gerenciamento e o programa de piscicultura para reduzir a pobreza nas comunidades urbanas e periurbanas acabou descontinuado. Porém mais recentemente, nos últimos cinco anos, a piscicultura e a aqüicultura estão sendo crescentemente reconhecidas, pelas populações urbanas e rurais, como atividades empresariais viáveis, e vêm ganhando terreno principalmente nos centros urbanos.

Agricultura urbana em Istambul, Turquia
Cagdas Kaya
A Turquia já foi definida como a ponte entre a Ásia e a Europa. Esses dois continentes e suas civilizações deixaram muitas marcas no país e no povo turco. Por milhares de anos, na Anatólia (na parte asiática) e na Trácia (na parte européia), a vida baseou-se principalmente na agricultura. Istambul, situada nessa ponte, está crescendo rapidamente na medida em que atrai imigrantes das áreas rurais. É nessa cidade que está situada a atividade agrícola descrita neste artigo.



Tradução: Joaquim Moura - críticas, comentários e sugestões: jmoura@hotmail.com e/ou www.agriculturaurbana.org.br