Revista de Agricultura Urbana
Urban Agriculture Magazine
RUAF - Centro de Recursos em Agricultura Urbana e Segurança Alimentar

Produção de tilápia em tanques domésticos de concreto nas periferias da Nigéria

J. A. Afolabi - alfabol@cyberspace.net.ng
P. B. Imoudu e O. A. Fagbenro
Federal University of Technology, Akure, Nigéria
Fotos: Krishen Rana - 1. Pequeno tanque de fundo-de-quintal para criação de bagres; 2. mercado informal de venda de truta defumada em Cidade do Cabo, África do Sul.

Esta é uma versão reduzida de um artigo disponível em www.ruaf.org

Duas importantes limitações para a instalação de empresas de piscicultura na Nigéria são a falta de capital inicial e a dificuldade para se adquirir a área de terra necessária. O preço do arrendamento de terras aptas para receber os modernos tanques de piscicultura convencional tornou-se proibitivo e inviável, especialmente nos centros urbanos por causa da competição e conflitos com os outros usos do solo típicos das cidades.

A aqüicultura doméstica e familiar, de fundo de quintal, nas áreas periurbanas foi recomendada na Nigéria como um método econômico de se produzir peixe e melhorar a nutrição da população. O tanque doméstico de concreto foi desenvolvido como um tipo de equipamento fechado, alternativo e acessível aos piscicultores de fundo de quintal.

Existe um potencial considerável para a Nigéria alcançar seu objetivo de aumentar a produção de proteína de peixe, especialmente nos centros urbanos, por meio da criação de tilápias em tanques domésticos feitos de concreto. Esses tanques têm baixo custo de instalação, pois ocupam pouco espaço e são baratos para construir e operar. São de manutenção fácil e podem ser tão funcionais e produtivos quanto os tanques de terra. A implantação de um tanque desse tipo não exige que se adquira a terra onde ele será instalado, e nem depende de fatores como acesso a uma fonte de água e topografia, teor de argila e níveis de alcalinidade do solo adequados. O início da construção é possível em qualquer época do ano – diferentemente dos tanques de terra, que devem ser construídos na época seca. A drenagem total é possível e o nível da água é facilmente controlado sem uso de mão-de-obra adicional durante a colheita dos peixes. Todos os peixes colhidos são consumidos pela família ou vendidos localmente. O empreendimento pode ser ampliado ou descontinuado, se for o caso, a baixos custos adicionais.
A tilápia é o mais importante peixe usado na aqüicultura na Nigéria por causa de sua rusticidade e rápido crescimento. A produção de tilápias em tanques é uma prática recente no país, razão pela qual há pouca informação disponível para a população sobre ela. Os aspectos econômicos dessa prática, especialmente os retornos do investimento, foram estudados pelos autores para levantar e determinar sua viabilidade para o possível desenvolvimento de empreendimentos de maior escala dentro do “Programa de Redução da Pobreza” para os moradores urbanos pobres implementado pelo governo nigeriano. Dois tanques de concreto foram então projetados e construídos para permitir o estudo da viabilidade técnica e econômica da criação da tilápia-híbrida na periferia de Lagos.

Os dois tanques à prova de vazamento, construídos acima do nível do solo, medindo 6m x 4m x 1,3m, foram construídos no quintal de uma casa de família na periferia de Lagos, para serem usados no estudo. Os materiais usados na sua construção foram concreto armado e blocos de cimento. Os “ladrões” para drenagem foram feitos com canos e joelhos de PVC instalados nos lados dos tanques. O fundo dos tanques foram cobertos com uma camada de areia de rio, com espessura de 3cm, com blocos quebrados e pedregulhos para servirem como filtro biológico e manter o pH estável, entre 7 e 8. Os tanques foram então cheios com a água distribuída pela rede municipal até a fundura de 1,2m. Os tanques tinham sua água completamente drenada no final de cada mês, para manter boas condições para o crescimento das tilápias.

Devido ao seu pequeno tamanho e à pouca fundura, a capacidade dos tanques é bem limitada, o que levou à escolha de se começar a criação com alevinos de tilápia-híbrida (monosexuada) com menos de 50g, na base de 6 peixes por m2, para serem criados durante 120 dias (ciclo de produção). A tilápia-híbrida foi escolhida por causa de sua rusticidade, adaptabilidade à superpovoação, e disponibilidade, a custos moderados, nos centros de multiplicação mantidos pelo governo. Juntamente com rações para peixes, o esterco de galinha (900 kg/ha/semana) serviu como fertilizante orgânico, espalhado sobre a superfície da água. Torta (bagaço) de soja foi usada como ração complementar, e servida uma vez por dia, na base de 5% do peso total de peixes nos tanques. A colheita total era realizada quando o tanque era esvaziado após cada ciclo de 120 dias. A temperatura e o pH da água eram monitorados durante todo o período de produção.

O artigo completo está disponível no sítio do RUAF, incluindo dados sobre o crescimento, sobrevivência, colheita etc. A tilápia híbrida usada neste estudo cresce rápido e, com seu hábito alimentar onívoro, atinge o tamanho de comercialização (mais que 180g) após cada ciclo de produção de 120 dias. A viabilidade econômica do sistema foi avaliada e uma análise de sensibilidade foi realizada sobre o impacto que mudanças nos preços dos insumos e na produtividade podem causar no retorno líquido do sistema produtivo. Esse retorno foi calculado em mais que 95%, o qual, comparado com a taxa de juros praticada pelos bancos, entre 23% e 25% ao ano, na Nigéria, mostrou-se muito alto e atraente, constituindo-se em substancial incentivo para novos investimentos nesse tipo de projeto. Tecnicamente, o sistema pode ser facilmente adotado por moradores urbanos, mas requer um gerenciamento apropriado e atento.

O estudo revelou que a tilápia pode ser criada com sucesso em tanques domésticos de concreto na periferia das cidades, sendo viável tanto técnica quanto economicamente. Essa prática pode reduzir significativamente a carência per capita de proteína de peixe na nutrição dos pobres urbanos, e quando estiver largamente difundida e praticada, poderá reduzir o déficit entre o fornecimento de peixe fresco e a demanda por esse produto.

Existe uma necessidade de se introduzir e encorajar a prática por todo o país e ela deve ser apoiada com um serviço de extensão adequado e com publicidade para alertar a população sobre essa solução capaz de aumentar sua segurança alimentar e melhorar sua renda.

Alguns pressupostos básicos para calcular os custos e os retornos

  • A quantidade de peixes a serem vendidos não pode passar de 90% da produção total no período.
  • - A mortalidade e a perda de peixes devem ser avaliadas em 10% do estoque.
  • - O tamanho da tilápia para ser comercializada é de pelo menos 180 g.
  • - A produção total deve ser calculada em função de 3 colheitas por ano.
  • - As vendas de tilápias próprias para o consumo devem ser estimadas em 100/kg (US$ 1/kg), cálculo aliás bem conservador.
  • - O peso total aproximado dos peixes é calculado multiplicando-se o peso médio pelo número de peixes produzidos.
  • - O custo dos alevinos deve ser calculado com base nos preços praticados no mercado.
  • - O esterco de galinha pode ser conseguido grátis, calculando-se apenas o preço de seu transporte.
  • - O aumento no preço da torta de soja (usada como ração) irá “take care” (?) da inflação e das mudanças nos preços.
  • - O custo com mão-de-obra não é incluído por que o trabalho deve ser realizado pelos membros das famílias, sem necessidade de salários pagos em termos profissionais.
  • - A vida útil dos tanques de concreto é calculada em 10 anos.
  • - O custo do capital investido (taxa de juros) na Nigéria é de 23 a 25% para os empréstimos concedidos pelos bancos comerciais.

Tradução: Joaquim Moura - críticas, comentários e sugestões: jmoura@hotmail.com e/ou www.agriculturaurbana.org.br