| Políticas
de apoio à agricultura urbana em Lisboa e Presidente Prudente
Isabel Maria Madaleno
– Isabel-Madaleno@clix.pt
Instituto Tropical, Lisboa, Portugal
Foto 1: I. Madaleno - Agricultor urbano em Presidente Prudente
Foto
2:
I. Madaleno -
Produção de composto em Lisboa
Durante
vários anos, o Instituto Tropical, de Lisboa, veio examinando
a agricultura intraurbana, com particular interesse em dois aspectos:
as hortas domésticas, mais voltadas para o auto-abastecimento,
e as hortas maiores, com fins comerciais ou de subsistência,
ou mistos.
As
hortas domésticas, que normalmente não têm qualquer
apoio nem figuram nas estatísticas, são cuidadas pelas
famílias, principalmente pelas mulheres da casa. Existem
áreas ao redor da casa, ou mesmo em pátios interiores
ou nos telhados de complexos residenciais, onde as árvores
frutíferas e ornamentais combinam-se com hortaliças,
plantas medicinais e aromáticas, e às vezes até
com alguns animais.
As
hortas maiores, comerciais, mistas ou de subsistência, ocupam
principalmente os terrenos vazios existentes nas áreas urbanizadas.
Freqüentemente essas áreas são cultivadas ilegalmente,
por pessoas desempregadas ou sub-empregadas que as utilizam para
cultivos anuais, em um esforço para auto-gerarem seus postos-de-trabalho,
obterem alimentos ou simplesmente aumentar seu contato com a natureza
ou se manterem ocupados, preservando sua estabilidade física
e mental.
Ambas
as formas de agricultura urbana trazem benefícios, não
apenas sociais e econômicos mas também ecológicos.
Embora
a agricultura urbana tenha sempre existido nas cidades e em seus
arredores, muitas vezes ela é esquecida e – ainda pior
– é excluída do planejamento urbano formal,
subestimada nas políticas de gerenciamento urbano, e invisível
para muitos pesquisadores. Entretanto, existem alguns programas
públicos importantes cujo objetivo é não apenas
ensinar mas também promover a produção alimentar,
o processamento e a comercialização de alimentos pelas
populações urbanas, nas cidades e áreas metropolitanas
de todo o mundo.
Esse
é o caso de duas cidades muito diferentes, unidas apenas
por um idioma comum. Lisboa, a capital de Portugal, e Presidente
Prudente, um centro urbano no interior do sudeste do Brasil, no
estado de São Paulo. Enquanto que o município de Lisboa
tem cerca de 700.000 habitantes, Presidente Prudente tem 170.000.
Lisboa tem um clima mediterrâneo, com uma temperatura moderada,
ao contrário de Presidente Prudente, que conta com um clima
subtropical úmido. Na cidade brasileira, a renda média
por pessoa é a metade da verificada na capital portuguesa,
e portanto não surpreende que os objetivos principais de
seus programas de agricultura urbana sejam bem diferentes.
Hortas pedagógicas
em Lisboa
No
município de Lisboa, a agricultura intra-urbana é
um fenômeno de micro-escala, porém amplamente praticado
nos pátios interiores, onde podem ser encontradas árvores
frutíferas, como pés de laranja, banana e abacate,
cultivadas junto a pequenas hortas domésticas. Nos bairros
mais periféricos, algumas áreas desocupadas são
utilizadas para o cultivo de alimentos e a criação
de pequenos animais, quase sempre consumidos diretamente pelas famílias
dos produtores. Algumas dessas áreas são arrendadas
à municipalidade por um preço simbólico, já
que em Lisboa o preço da terra é dos mais altos na
Europa.
O
problema é que os espaços desocupados estão
se tornando cada vez mais escassos. Os agricultores vêem-se
forçados a vender suas propriedades para o desenvolvimento
urbano. Edifícios modernos e caros substituem moradias muito
antigas, e assim os espaços verdes se vão reduzindo.
Como
a taxa de residentes mais idosos em Lisboa também vinha aumentando
em um ritmo preocupante,
a municipalidade começou a construir blocos de apartamentos
subsidiados, muito mais baratos e acessíveis, para os jovens,
em detrimento da agricultura periurbana e até de zonas ecológicas
institucionalizadas. Por outro lado, as zonas industriais foram
limpas e reurbanizadas, embelezadas, como ocorreu na área
da Expo 98, que contribuiu para revitalizar toda a parte oriental
da cidade.
Além
disso, à medida que a taxa de crescimento diminui em todo
o país há anos, as escolas na maior parte dos bairros
mais antigos de Lisboa começam a se esvaziar. Para trazer
novas crianças para essas velhas escolas, a
municipalidade, juntamente com o Ministério da Educação,
concebeu algumas estratégias, tais como deixar que os pais
escolhessem uma escola mais perto de seu local de trabalho, ou criando
tarefas alternativas para os professores e atividades atraentes
para os alunos. Assim, durante os anos 90, a “agricultura
pedagógica” foi promovida em toda a cidade. Os planos
de construção de todas as escolas preparatórias
e primárias passaram a incluir sua própria horta para
o cultivo de alimentos. As escolas mais antigas e que tinham espaço
para plantios também receberam a orientação
e os equipamentos necessários.
A
educação ambiental não somente é bem
aceita pelos adultos como também é uma forma de envolvê-los
mais com atividades de agricultura urbana. Os pais contribuem com
lixo orgânico para a produção de composto e
são convidados a comprar os produtos cultivados organicamente
quando há produção excedente.
As
hortas pedagógicas tiveram tanto êxito que em 1996
a municipalidade (por meio do “Conselho Verde”) implantou
e desenvolveu a "Cidade Agrícola", em Olivais,
Lisboa, aberta à visitação pública e
onde, além do cultivo de vários alimentos, criam-se
patos, coelhos, porcos e ovelhas. Os visitantes – mais de
100 mil por ano - são convidados a participar do preparo
de pães, queijos e outros produtos processados a partir das
matérias primas produzidas no local. Além disso, a
partir de 2001 foi criado um concurso, patrocinado por um banco
local em colaboração com a prefeitura, para premiar
as hortas mais bem cultivadas da capital portuguesa. Dezenas de
escolas e de horticultores privados inscrevem-se anualmente.
Essas
iniciativas municipais e do setor privado são um esforço
inicial para reintegrar os cada vez mais numerosos horticultores
anônimos de LIsboa no planejamento da cidade, e revisar as
posturas municipais para facilitar o uso múltiplo das terras
lisboetas.
O programa “Alimente
Prudente”
A
cidade de Presidente Prudente está localizada em uma área
altamente industrializada do estado de São Paulo, no sudeste
do Brasil. O programa “Alimente Prudente” foi criado
para estimular o aproveitamento de terrenos sem construção
para o cultivo de hortaliças por famílias de baixa
renda. As autoridades locais carecem de fundos para manter bem conservadas
e limpas as áreas públicas baldias. Como foi verificado
em levantamento realizado em 1999, são os aposentados e os
desempregados, especialmente os homens, que produzem nesses terrenos,
de modo extensivo, batata-doce, mandioca e uma variedade de leguminosas
durante todo o ano, usando fertilizantes orgânicos. Os serviços
de extensão fornecem arados, bombas d’água e
sementes grátis para a primeira semeadura, ao mesmo tempo
que se evita a criação de gado bovino dentro da cidade
(Madaleno, 2000).
Os
objetivos iniciais do programa foram apoiar a horticultura comunitária,
melhorar o acesso das famílias a alimentos com maior valor
nutricional, propiciar às pessoas mais velhas uma ocupação
prazerosa com efeitos terapêuticos, e criar postos de trabalho
para os excluídos, combatendo a fome e o desemprego ao mesmo
tempo.
O
programa foi iniciado em 1997 com o objetivo de incluir 200 famílias.
Dois anos depois havia 50 famílias oficialmente ligadas ao
programa, porém, como se soube depois, muitos outros beneficiários
anteriores, que iniciaram seus plantios apoiados pelo programa (no
acesso a terreno para plantar e nos impulsos técnico e financeiro
iniciais), continuavam plantando, apenas de modo desvinculado do
programa, preferindo conduzir suas operações de modo
pessoal e independente.
De
fato, os horticultores da cidade somente costumam pedir ajuda quando
querem aumentar a área de seus cultivos - que varia de 500
a 2.000 m2. A Secretaria Municipal de Agricultura fornece assessoria
legal gratuita na elaboração dos contratos entre os
horticultores e os proprietários dos terrenos privados.
O
agricultor que aparece na foto acima cultiva duas parcelas, ambas
situadas perto de sua casa no bairro de Itapura, onde ele cultiva
mandioca, batata-doce, chicória e outras hortaliças.
Outra
alteração que se mostrou necessária para o
plano inicial foi a desistência do trabalho hortícola
em bases comunitárias (em grupos), já que as pessoas
parecem preferir trabalhar individualmente ou então apenas
com suas famílias.
O
plano previa a utilização de 40.000 m2 de terras públicas,
distribuídos em cultivos de mandioca, feijão e milho
(10.000 m2 cada), e de batata-doce e abóbora (5.000 m2 cada).
No final de 1999, 42 áreas produtivas apoiadas oficialmente
pelo programa estavam plantando diversas combinações
dos cultivos planejados, e havia oito terrenos dedicados exclusivamente
a hortaliças. Os resultados do programa foram, além
dos indiscutíveis benefícios alimentar e econômico,
o aumento do interesse pela agricultura e pelos produtos orgânicos
nas vizinhanças mais pobres, e uma redução
nas queixas denunciando a proliferação de insetos
e ratos dentro dos limites da cidade.
Conclusão
Os
problemas que os programas dos governos municipais de Lisboa e de
Presidente Prudente procuram resolver valendo-se dos recursos da
agricultura urbana são bem diferentes. Na Europa Ocidental,
o nível de renda mais alto dos cidadãos permite uma
participação menor da municipalidade na provisão
de alimentos e nas ações de criação
de postos de trabalho, sendo que os mais pobres têm acesso
a programas nacionais de ajuda social. Assim, em Lisboa, a agricultura
urbana é sinônimo de lazer, de educação
ambiental, de produção e processamento de alimentos
saudáveis, de manutenção de espaços
verdes e de preservação da variedade genética.
Por outro lado, no Brasil, as principais metas públicas dos
programas de agricultura urbana são o aumento da renda, a
criação de empregos e a melhoria da saúde e
da nutrição das camadas mais pobres da população.
Em conseqüência, a integração da agricultura
urbana dentro do planejamento é, comparando-se os dois casos,
tão diferenciada, como são diferentes as duas cidades
e os seus cidadãos.
Referências
- FECA 2000.
We are Part of the Earth and the Earth is Part of Us. Federação
Européia de Cidades Agrícolas.
- Madaleno I.M.
2000. City Food and Health in Brazil. Trabalho apresentado na Conferência
Eletrônica da FAO/ETC, de 21 de agosto a 30 de setembro e
disponível em www.fao.org/urbanag ou em www.ruaf.org
- Smit J. 1998.
What Would the World be like in the 21th Century if Cities Were
Nutritionally Self-Reliant? Notas de Agricultura Urbana. Vancouver:
City Farmer. www.cityfarmer.org
- Woodsworth
A. 2001. Urban Agriculture and Sustainable Cities. Notas de Agricultura
Urbana. Vancouver: City Farmer. www.cityfarmer.org/alexandraUA.html
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