| PROVE
-"Programa de Verticalização da Pequena Produção Agrícola"
João
Luiz Homem de Carvalho - jluizhc@uol.com.br
APROVE - Associação de
Apoio à Verticalização da Pequena Produção Agrícola
Foto 1: João L.H. Carvalho - inauguração de uma
instalação "PROVE" no Equador
Foto 2: João L.H.
Carvalho - estande de venda de produtos "PROVE" em super-mercado
em Brasília
O PROVE -"Programa de Verticalização da Pequena Produção Agrícola"
- foi desenhado para promover a pequena produção agrícola, seu processamento
e sua comercialização . Inclui diversos tipos de sistemas agrícolas
urbanos e periurbanos, como hortas, pomares e a criação de animais.
A intervenção é no nível individual e/ou coletivo, focalizando especialmente
os grupos de menor renda. O PROVE foi iniciado em 1995. No período
1995-1998, cerca de 500 instalações industriais foram instaladas
pelo Brasil. Durante esse período, a renda familiar per capita
mensal das pessoas envolvidas no programa aumentou de 25 para 100
dólares. Em média, cada projeto gerou trabalho para seis pessoas,
geralmente membros da mesma família. Os recursos desembolsados pelo
setor público (US$ 200) por cada posto de trabalho gerado pelo PROVE
foram destinados estritamente a cobrir os gastos operacionais de
recursos já existentes dedicados à capacitação,
como, por exemplo, salários, combustível etc., já que os demais
custos de produção correm por conta dos próprios produtores.
Nos
cinco anos anteriores a 1995, mais de 400.000 pequenas granjas foram
desativadas no Brasil, levando mais de 2 milhões de pessoas a abandonar
as zonas rurais. Esse êxodo rural teve um importante papel no aumento
da taxa de desemprego, devido a não haver, nas cidades, postos de
trabalho suficientes para tanta gente. Ao mesmo tempo, a urbanização
crescente levou ao aumento da demanda por produtos processados.
O PROVE foi desenhado para enfrentar ambos os problemas e desenvolvido
para oferecer aos pequenos agricultores e às suas famílias as condições
apropriadas para produzir, processar e comercializar seus produtos,
e como fonte de emprego, renda e condições de vida adequadas.
Objetivo
geral e estratégias
O
objetivo geral do PROVE foi mostrar que a agroindustrialização dos
pequenos sistemas produtivos é uma opção social positiva para melhorar
a renda dos pequenos agricultores, em um processo de desenvolvimento
sustentável baseado na solidariedade.
Foram
desenvolvidas estratégias específicas como as seguintes:
- Apoio
aos agricultores nos processos de produção, estruturação e comercialização
de seus produtos agrícolas, melhorando sua competitividade no mercado
formal;
- Assegurar
os créditos dos bancos e o acesso a pontos de venda sofisticados;
- Implementação
de ações para incentivar e apoiar o estabelecimento de associações,
cooperativas, etc., e para assegurar a sustentabilidade do programa;
e
- Dirigir
a capacidade estabelecida do Estado para atender com prioridade
a esses pequenos agricultores.
Método
O PROVE foi desenhado para capacitar os pequenos agricultores
pobres (grupo-alvo) para superarem certas etapas ou barreiras fundamentais
na produção, processamento e comercialização de
seus produtos,
que normalmente os mantêm excluídos do mercado.
Para
fins ilustrativos, comparamos essas etapas com (onze) degraus de
uma escada (Carvalho, 2001).
-
Instituições motivadoras. O primeiro passo consiste
em fazer o inventário e a avaliação dos atores: como e por
quais motivos as instituições públicas existentes se comprometeriam
com um programa como o PROVE? Foi nossa preocupação garantir que
os técnicos envolvidos recebessem toda a informação necessária
sobre o programa. Para esse propósito, foram utilizados cursos,
apresentações e seminários sobre a necessidade de trabalhar com
produtores rurais socialmente marginalizados. A determinação do
governo, em seu conjunto, de levar adiante o programa lhes foi
demonstrada de modo bem claro. A divulgação do programa também
recebeu a devida prioridade.
-
Dar incentivos. Para motivar uma audiência socialmente
marginalizada, as vantagens do programa devem ser bem divulgadas.
Isso significa explicar o valor agregado aos esquemas da pequena
produção rural e as vantagens das práticas coletivas, sem descartar
quem queira participar do programa de modo individual. Os pequenos
produtores foram incentivados pelo PROVE a se organizarem em associações.
Adicionalmente, foi criada uma ONG, denominada APROVE (Associação
de Apoio à Verticalização da Pequena Produção Agrícola), com o
propósito de apoiar e estimular as iniciativas dos pequenos agricultores.
-
Assegurar linhas de crédito. Agentes financeiros
públicos e privados criaram linhas de crédito cobrando a taxa
de juros praticada pelo mercado. Foi utilizado um Fundo de Garantia
criado pelo setor público para garantir os empréstimos de até
US$ 7.000 para projetos individuais, e US$ 25.000 para projetos
coletivos. Para empréstimos superiores a essas quantias, os tomadores
devem trazer um avalista. O período de carência até
o início do pagamento do empréstimo variava de acordo com
a capacidade financeira de cada tomador, indo, geralmente, de
1 a 2 anos para os projetos individuais (em torno de US$ 5 mil),
e de 4 a 6 anos para os coletivos (acima de US$ 25 mil). O prazo
de pagamento variava entre 6 e 8 anos para os projetos individuais
e superavam os 12 anos para os coletivos. Para atender a necessidade
dos bancos, para concederem o empréstimo, de ter alguma
garantia física, os projetos quase sempre envolviam a instalação
de uma instalação modular móvel, onde se
processavam várias atividades ligadas à agroindústria,
e essa instalação era a garantai para o banco (ver
nota). A idéia desse esquema nasceu da necessidade de considerar
que essas pessoas, mesmo tendo seus pedidos de empréstimo desprezados
pelos bancos, são suficientemente competentes para gerar
renda e trabalho. Além do mais, eles, como qualquer pessoa,
também precisam trabalhar, criar seus filhos e levar uma
vida proveitosa e significativa.
-
Leis e legislação sanitária específicas. Foi necessário
rever e reformular a Lei do Distrito Federal para a Inspeção de
Produtos Animais e Vegetais, porque era uma barreira que impedia
que muita gente se envolvesse nessas atividades. O governo local
então elaborou e promulgou um conjunto de regras para a
construção de pequenas instalações agroindustriais (medindo entre
30 e 40 m2). Essa lei inspirou outras semelhantes em outros estados
e cidades do Brasil.
-
Construção de pequenas instalações agroindustriais.
Uma vez a lei aprovada, começou a implantação de pequenas instalações
agroindustriais, como matadouros para animais pequenos e médios,
e instalações para a produção de doces, vegetais pré-processados,
conservas, produtos lácteos, etc.
-
Capacitação. A capacitação profissional dos pequenos
agricultores foi promovida, para que pudessem começar sua produção
a partir das matérias-primas. Foram realizadas visitas a supermercados
para lhes dar uma orientação teórica e prática sobre a comercialização
de produtos processados ou semiprocessados. Também foram organizados
cursos especialmente desenhados para a clientela-alvo do PROVE,
com informações sobre como criar Associações e Cooperativas, e
sobre Administração Rural, Manipulação de Alimentos e Higiene
Alimentícia.
-
Insumos. Vários insumos são necessários para a fabricação
de diferentes produtos, e a embalagem dos produtos processados
determina o êxito da venda. Os pequenos produtores não contam
com recursos suficientes para adquirir todos esses insumos. Por
isso foi criado o Balcão da Pequena Agroindústria, para facilitar,
aos pequenos produtores, a compra de maquinário e equipamentos
de pequena escala.
-
Publicidade e marketing. O PROVE propunha que o
Estado estimulasse e financiasse profissionais de publicidade
e de marketing, em tempo integral, para que concebessem
e implementassem um plano para a comercialização de seus produtos.
Uma das tarefas mais importantes foi a criação de uma marca comercial
que identificasse o programa (PROVE é um convite à experimentação)
em todos os produtos à venda. A marca também servia como
selo de garantia de qualidade.
-
Comercialização dos produtos. As pequenas instalações
agroindustriais são capazes de produzir bens de excelente qualidade.
A comercialização constitui o passo final no processo de produção
e é também o mais difícil e decisivo. O PROVE demonstrou que é
muito mais fácil vender um bom produto com uma embalagem atraente
e uma marca profissional, sem importar se ele foi fabricado em
pequena escala e por pessoas de baixa renda. Os produtos
PROVE passaram a ser vendidos também em supermercados como o resultado
de um acordo entre os estados, os supermercados e os produtores
(PROVE - pesquisa de mercado 1998).
-
Inspeção e controle. Para que os consumidores finais
estivessem seguros quanto às condições higiênicas e sanitárias
dos produtos PROVE, deviam saber que esses produtos eram inspecionados
no local de produção e submetidos a medidas bem exigentes de controle
de qualidade. Para esse fim, eram realizadas análises químicas
e microbiológicas dos produtos, inspecionados de modo periódico.
-
Continuidade. As informações recolhidas durante
a avaliação do PROVE (Duarte e outros, 1998), mostrou que o programa
inclui suficientes elementos para garantir seu êxito e alcançar
o objetivo principal, que foi inserir os pequenos produtores do
Distrito Federal no sistema de comercialização e restabelecer
seus direitos como cidadãos. Vale a pena mencionar que, além de
mudar as práticas de produção, resultado inquestionável do programa
, o PROVE abriu caminho para uma mudança gradual na mentalidade
e na consciência social dos produtores. Acreditamos que, uma vez
integrada à vida diária dos produtores, essa será uma mudança
irreversível. O fato de que os pequenos produtores do PROVE tenham
desenvolvido a habilidade para administrar seus próprios negócios,
entender a relação custo-benefício de suas atividades, manter
seus registros contábeis e planejar seu futuro, é um sinal claro
da mudança produzida na vida dessas pessoas. Elas assimilaram
elementos concretos e simbólicos que não eram parte de sua realidade
antes do programa.
A
excelente replicabilidade do programa pode ser atribuída principalmente
à sua divulgação massiva através dos meios de comunicação
nacionais, e graças às centenas de visitas, a Brasília, de pessoas
vindas de diferentes partes do Brasil e do exterior. Essas pessoas
confirmaram que o programa é possível especialmente porque pode
ser facilmente implementado, a baixo custo, pelas agências públicas,
ao mesmo tempo em que ajuda a dinamizar a economia local.
Nota
O
maior problema que o pequeno produtor (pobre, sem acesso a bancos
ou então com histórico de inadimplência bancária),
que precisa sobreviver com seu trabalho e o de sua família,
é que ele não tem como dar qualquer garantia para
o empréstimo. Fica dificílimo para ele obter um empréstimo
para instalar uma agroindústria de alvenaria em sua propriedade.
Então nós solicitamos que o Banco (conforme o Acordo
da Basiléia) financie uma "agroindústria móvel".
Essa, na realidade, é uma casinha feita de metal com isolamento
de isopor que se coloca em cima de um caminhão e entrega-se
na propriedade do pequeno produtor que contraiu o empréstimo.
Para o banco, nosso argumento foi que, no caso de não pagamento
do empréstimo, a instituição seqüestra
a casinha, para nós uma produtiva agroindústria de
32 metros quadrados, em um procedimento semelhante ao realizado
quando qualquer outro bem financiado e não pago, um carro
por exemplo.
Referências
- Carvalho
JLH de. 2001. O PROVE - Programa de Verticalização da Pequena Produção
Familiar. Cuaderno de Trabajo 83. Programa de Gestão Urbana
- Duarte
LMG, Brasil ICP, Salviano OMMF, Bizerra RS. 1997. Relatório de Pesquisa.
Avaliação do PROVE. Brasília. Secretaria de Agricultura do DF.
- Pesquisa
PROVE. 1998. Relatório Final. Brasília. Instituto Euvaldo Lodi do
DF.
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