Biodiversidade,
Pobreza e Agricultura Urbana
na América Latina
Alain
Santandreu – alain@pgu-ecu.org
IPES/UMP-LAC/HABITAT, Equador
Alberto Gómez Perazzoli
– umr@piso3.imm.gub.uy
Unidade de Montevidéu Rural
Prefeitura Municipal de Montevidéu, Uruguai
Marielle Dubbeling –
marid@pgu-ecu.org
IPES/UMP-LAC/HABITAT, Equador
Foto 1: Eric Gowie - área urbana fornecendo alimentos para
famílias durante todo o ano
Foto 2: M. Dubbeling - exemplo de espaço aberto urbano que
poderia ser cultivado
Foto 3: M. Dubbeling - controle biológico de pragas usando
flores
Foto 4. M. Dubbeling - a biodiversidade colabora para a saúde
dos seres humanos e do meio ambiente
Até
a primeira metade do século XX, as zonas rurais da América
Latina e do Caribe (ALC) concentravam os maiores níveis de
pobreza. Entretanto, com o passar dos anos, os pobres migraram para
as cidades buscando mais renda e melhor qualidade de vida. Nos últimos
anos a taxa de urbanização das cidades da América
Latina cresceu aceleradamente, e, pela primeira vez na História,
há mais pobres urbanos do que rurais. Entre as estratégias
empregadas pela população urbana mais pobre e pelos
governos locais encontra-se a agricultura urbana e a conservação
da biodiversidade. Recentes pesquisas realizadas em Havana (Cuba),
Montevidéu (Uruguai) e Porto Alegre (Brasil) verificaram
como se dá esse fato.
A
América Latina é a região do globo que apresenta
os maiores níveis de urbanização, abrigando
4 das 15 maiores cidades do mundo (Cidade do México, São
Paulo, Rio de Janeiro e Buenos Aires). Atualmente, vivem na região
mais de 125 milhões de pobres urbanos (Mac Donald e Simioni
1999), muitas vezes excluídos urbana e socialmente. A “urbanização
da pobreza” é uma conseqüência inevitável
da falta de emprego, de planejamento físico, de ordenamento
territorial, e de políticas sociais, econômicas, urbanas
e ambientais adequadas.
Para
poder sobreviver, os pobres urbanos se vêem obrigados a auto-construir
suas moradias e a cultivar os seus alimentos em zonas perigosas,
frágeis, ou altamente contaminadas, causando importantes
impactos nos ecossistemas em que se instalam, e arriscando ainda
mais sua qualidade de vida. Porém são poucos os observadores
que percebem a colaboração dos produtores urbanos
para a conservação da biodiversidade urbana, a melhoria
da paisagem e a qualidade de vida das cidades.
| Biodiversidade
O
Convênio sobre a Diversidade Biológica, assinado
em junho de 1992 por ocasião da Conferência das
Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento
(Rio de Janeiro – Brasil), define biodiversidade como
a variedade de organismos vivos de qualquer origem, incluindo-se
os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos,
os complexos ecológicos “dos quais eles fazem parte”,
e inclui ainda a diversidade dentro de cada espécie,
entre as espécies e os ecossistemas”.
De
acordo com várias fontes, existem pelo menos 1.750.000
espécies de seres vivos em nosso planeta, base de toda
a diversidade genética (Evia e Gudynas, 2000; Altieri,
1992). Um bom exemplo é constituído pelas plantas
medicinais. Estimadas entre 25.000 e 75.000 espécies,
muitas delas são empregadas na fabricação
de remédios tradicionais. Entretanto a sobrevivência
dessas práticas está ameaçada pelo avanço
de um modelo de desenvolvimento que vai promovendo a extinção
de milhares de espécies, o desaparecimento dos espaços
naturais, a perda dos conhecimentos tradicionais, e a apropriação
de espécies por parte das multinacionais farmacêuticas
(Vicente, 1994; Martinez Alier, 1995 |
Diversos
trabalhos demonstram como os pobres urbanos desenvolvem estratégias
inovadoras para enfrentar suas necessidades alimentares e de saúde
(Cabannes e Mougeot, 1999), produzindo de modo ecológico,
transformando e comercializando hortaliças, frutas, pequenos
animais e peixes. Junto a isso, alguns governos locais desenvolveram
estratégias agrícolas e de reflorestamento que incentivam
o plantio de árvores nativas, frutíferas e ornamentais,
melhoram a paisagem urbana e atraem pássaros e insetos não
nocivos para as cidades.
Estudos
recentes na América Latina e no Caribe permitem ver o papel
da Agricultura Urbana na melhoria da gestão ambiental e da
segurança alimentar dos setores mais pobres das cidades da
região. O êxito do desenvolvimento da AU depende do
acesso a terras, de espaços assegurados para a comercialização
dos produtos, e do manejo sustentável dos resíduos
sólidos e líquidos reciclados como adubos, permitindo
a integração harmônica da atividade agrícola
com o ambiente urbano.
Como
contrapartida, a AU ecológica contribui para melhorar o funcionamento
hídrico, conservar solos e águas, diminuir a dependência
dos produtores pobres diante dos agrotóxicos comerciais,
viabilizar o manejo e a reciclagem dos resíduos sólidos
orgânicos e melhorar o microclima, o valor estético,
recreativo e a biodiversidade das cidades (Bakker e outros, 2000;
Smit, 2001).
Biodiversidade
e Agricultura Ecológica
A
agricultura moderna implica na simplificação da estrutura
ambiental de vastas áreas, substituindo a biodiversidade
natural por um pequeno número de plantas cultivadas e de
animais domesticados. Historicamente, a diversidade na agricultura
demonstrou ser uma maneira de os agricultores se protegerem de pragas
e doenças. Pelo contrário, o caminho da especialização
e da monocultura provoca o aumento da contaminação
com o uso de agrotóxicos e fertilizantes, a degradação
dos recursos naturais, e a vulnerabilidade crítica a pestes
e doenças que ataquem as poucas espécies cultivadas.
Como conseqüência, assiste-se a um processo acelerado
de “erosão genética” das espécies
cultivadas, que ocorre pela substituição de variedades
de maior diversidade e maior adaptação local por cultivares
denominados “modernos”, industrializados, obtidos através
da manipulação e seleção do material
genético.
A
agricultura urbana ecológica não é apenas parte
importante das estratégias adotadas pelos mais pobres. Alguns
governos também promovem a AU orgânica como fica demonstrado
nas diretrizes definidas pelo Grupo Nacional de Agricultura Urbana,
do Ministério de Agricultura de Cuba, que incorpora como
parte de seu programa “a formação de uma consciência
agroecológica de conservação do ambiente aliada
a altos níveis de produção com qualidade”
(Grupo Nacional de Agricultura Urbana, 2001).
Biodiversidade
e cidade
As
cidades modernas afetam fortemente seu entorno natural e a biodiversidade
das áreas vizinhas, esgotando muitos recursos para se abastecer
de alimentos, materiais e energia; depositando seus resíduos
sólidos e despejando suas águas contaminadas nas áreas
naturais e agrícolas. A “pegada urbana” ou “pegada
ecológica" das cidades contribui significativamente
para a perda de biodiversidade.
| Diversos
trabalhos mostram como a Agricultura Urbana desenvolvida na Região
é, em sua maior parte, ecológica. Um estudo recente
realizado pelo PGU, IPES e IDRC em várias cidades da América
Latina “indicou que a AU praticada é antes de tudo
biológica e só
excepcionalmente recorre
a pesticidas e a adubos químicos, já que é
praticada pelos pobres, que não têm acesso a esses
produtos (Cabannes e Dubbeling, 2002). |
Em
muitos países, existem enfoques que tentam reverter, a partir
das próprias cidades, esses processos de redução
da biodiversidade, ao considerar, por exemplo, todos os espaços
verdes da cidade (parque, jardins e bosques) como locais para conservação
de inúmeras espécies, principalmente nativas. Na Austrália,
um jardim urbano projetado especialmente para atrair animais silvestres
chega a abrigar 140 espécies diferentes em apenas 700 m2
(Gardenin, 1999). No Reino Unido, as hortas e os jardins domésticos
têm um potencial importante no suporte da biodiversidade urbana,
já que somam mais de 60% da área urbana nas zonas
residenciais (The Bugs Project, 2000).
Para
que a cidade promova a biodiversidade, é necessário
um manejo ecológico sustentável de seus espaços
verdes e de sua agricultura. A AU ecológica também
foi proposta como uma forma de reduzir o processo de perda de biodiversidade,
ao incluir o cultivo de plantas, a criação de gado
e a aqüicultura nos assentamentos urbanos.
Na
cidade de Porto Alegre (Brasil), capital do Estado do Rio Grande
do Sul, vem sendo desenvolvida uma interessante política
de reflorestamento urbano que incorpora espécies nativas
e árvores frutíferas. Lá, as árvores
nativas constituem hoje 45% do total, e as frutíferas já
superam os 6%. Como parte dessa política, o município
promove o plantio de corredores florestais com espécies úteis
para abrigar e alimentar aves e insetos, como a grandiúva
(Trema michantha); a canela (Aiourea saligna);
o chá-de-bugre (Casearia sylvestris); a figueira-de-folha-graúda
(Fícus enormis); e o chal-chal (Allophylus edulis)
(Sanchotene, 2000). Dessa forma, não apenas são resgatadas
as espécies nativas e frutíferas para o desfrute dos
moradores urbanos, como também é estimulada a biodiversidade
urbana, animal e vegetal.
Biodiversidade,
agricultura urbana e pobreza
Porém
não é apenas a biodiversidade que é conservada
dessa forma. Outras experiências nos permitem apreciar o papel
desempenhado por uma AU sustentável, que integre harmonicamente
os vários aspectos ambientais, econômicos e sociais.
Em muitos casos, a AU ecológica aparece como mais diversificada
do que a agricultura moderna, ao cultivar freqüentemente variedades
de frutas e vegetais que não estão disponíveis
comercialmente e que, de outra forma, correriam o risco de desaparecer
(Garnett, 1996; Smit, 2000; Santandreu e outros, 2000).
Um
diagnóstico realizado em bairros populares da cidade de Montevidéu
(Uruguai) identificou nos quintais a presença de numerosas
espécies de hortaliças, plantas medicinais e árvores
frutíferas que não são cultivadas nos estabelecimentos
agrícolas comerciais. Nesses bairros, a AU desenvolve-se
fundamentalmente para o auto-consumo e os agricultores conservam
as variedades locais, cultivando-as de modo ecológico com
um uso mínimo ou inexistente de produtos químicos
na adubação e no controle de pragas e doenças
(Santandreu e outros, 2000).
No
caso das hortaliças, as variedades cultivadas pelos agricultores
urbanos vinculam-se diretamente com sua alimentação,
o que comprova a relação entre os pobres urbanos e
seu papel na conservação da biodiversidade a partir
de suas práticas de AU. As principais espécies identificadas
são: milho (Zea mays L.); alho (Allium sativum
L.); batata (Solanum tuberosum); “boniato”
(Ipomoea batatas); cebola (Allium cepa); cenoura
(Daucus carota); abóbora (Cucurbita sp.);
e tomate (Lycopersicom esculentum), que integram a dieta
mais freqüente dos setores mais pobres da cidade (Santandreu
e outros, 2000; Elola, 2000). Também são encontradas
numerosas espécies e variedades de árvores frutíferas,
muitas das quais não são comercializadas ou pouco
comuns nos mercados, tais como a nêspera (Eriobotrya japonica);
“palta” (Persea americana); figo (Fícus
carica) e espécies frutíferas como pitanga (Eugenia
uniflora); “guayabo (Feijoa sellowiana) e maracujá
(Passionaria sp.).
Outro
estudo realizado na mesma cidade identificou a presença de
plantas medicinais em 48% das residências que praticam alguma
forma de AU. As espécies plantadas incluem: babosa (Aloe
sp.); alecrim (Rosmarinum officinalis); “anacahuita”
(Schinus molle); palma-da-índia (Tanacetum malva);
e hortelã (Menta sp.) (Barg e Litovsky, 1998) e
permitem reduzir os gastos das famílias com problemas de
saúde.
Em
Havana (Cuba), recentes pesquisas realizadas pelo FUNAT identificaram
o cultivo urbano de várias espécies como o “sagu”
(Maranta arundinacea L.); inhame (Dioscorea alata);
e “capuli” (Muntingia calabura L.). Essas espécies,
de muita tradição na dieta cubana, não são
mais cultivadas nas zonas rurais, porém continuam sendo cultivadas
nos bairros populares da cidade. Do sagu é extraída
uma farinha com que se prepara o mingau tradicionalmente usado como
primeiro alimento no desmame das crianças e na alimentação
dos mais idosos e de vítimas de transtornos intestinais,
devido à grande digestibilidade de seu amido. Já o
inhame é consumido de preferência cozido ou frito,
tomando parte de boa parte dos pratos tradicionais. O “capuli”
é uma pequena árvore que dá frutinhas parecidas
com cerejas (Sanchez, 2001).
Como parte de sua estratégia para promover a segurança
alimentar no país, a política cubana de Agricultura
Urbana busca disseminar essas e outras espécies como forma
de “interromper seu processo de extinção e potencializar
seus variados usos” (Grupo Nacional de Agricultura Urbana,
2001). O resgate dessas e de outras espécies comestíveis
é realizado nas hortas e hortos urbanos da cidade, localizados
em bairros populares e densamente povoados como Havana Velha, a
zona com maior densidade populacional na capital cubana.
Esses
exemplos demonstram a contribuição das práticas
da AU ecológica desenvolvidas por setores mais pobres com
relação à conservação da biodiversidade
agrícola urbana.
Comentários
finais
| Os
autores agradecem os comentários e colaborações
de Roberto Sanchez, da Fundação “Natureza
e Homem”, FUNAT (Havana, Cuba), de Silvana Mariani, do PRO-HORTA/CEPAR
(Argentina), de Sebastian Elola, do Centro de Estudos Uruguaio
de Tecnologias Apropriadas, CEUTA, e de Eduardo Gudynas, do Centro
Latino Americano de Ecologia Social, CLAES (Montevidéu,
Uruguai). |
Se
os pobres urbanos desenvolvem práticas de AU ecológica
ao cultivarem as espécies e variedades mais freqüentes
em suas dietas, seria interessante aprofundar estudos para identificar
em que medida essas práticas contribuem para a conservação
da biodiversidade agrícola e urbana. Também deve ser
pesquisada qual a relação existente entre as variedades
plantadas com a melhoria da dieta, da saúde e da qualidade
de vida dos setores mais pobres.
A
pressão pela substituição de sementes caseiras
por variedades importadas e até geneticamente alteradas é
cada vez mais forte tanto no ambiente rural como no urbano. O cultivo
de sementes caseiras dispensa o sistema industrial de produção
e comercialização de sementes, que por isso pressionam
os produtores para que comprem as suas sementes, argumentando que
são de melhor qualidade e mais produtivas. Esse processo
que pode responder a uma lógica agrícola comercializada
e industrializada, não deve ser transplantado mecanicamente
para as atividades agrícolas desenvolvidas nas cidades. Será
necessário pensar em programas de conservação
e troca de sementes que permitam melhorar o acesso dos mais pobres
a elas.
Por
outro lado, os ecossistemas urbanos são caracterizados pela
alta concentração de estruturas construídas
e ausência marcante de elementos naturais, com forte tendência
à redução da biodiversidade (que pode ser percebida
pela plantação massiva de poucas espécies de
árvores, quase todas apenas para prover sombreamento etc.).
Uma política de reflorestamento do ambiente urbano com espécies
nativas e árvores frutíferas permitiria gerar espaços
interessantes de biodiversidade biológica em solos urbanos.
Estudar
em profundidade as espécies e variedades presentes na AU
ecológica desenvolvida em cidades da ALC permitiria conhecer
sua contribuição para a conservação
da biodiversidade agrícola e urbana e a segurança
alimentar dos agricultores pobres. Deveriam ser abertos mais espaços
para a comercialização das espécies tradicionais
e promovido o acesso dos mais pobres ao mercado com assistência
técnica, divulgação de informações,
e legislação adequada.
O
acesso seguro ao solo, aos insumos e ao crédito necessários
para a prática da AU ecológica deve ser facilitado
particularmente para os pobres urbanos. Por tudo isso parece necessário
avançar no desenho e promoção de práticas
melhores do ponto de vista da biodiversidade urbana, para identificar
e divulgar os métodos mais efetivos. Para tanto, é
imprescindível a participação ativa dos produtores
urbanos e dos outros atores interessados na pesquisa e na promoção
de uma maior qualidade ambiental e de vida nas cidades.
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