Usando composto urbano na agricultura urbana na Índia
Almitra
H Patel - :almitrapatel@rediffmail.com
Bangalore, Índia
Foto: Almitra Patel - produção de composto em Misore,
Índia
A
compostagem dos resíduos urbanos é uma exigência
legal para todos os núcleos urbanos na Índia, mas
os governos central e estaduais ainda precisam perceber isso como
um bem social que exige mais apoio oficial.
Introdução
A
“Revolução Verde” na Índia salvou
o país da fome, mas resultou em cerca de 11,6 milhões
de hectares de solos exauridos com baixa produtividade por causa
do uso excessivo e desequilibrado de adubos sintéticos e
pesticidas, e falta de matéria orgânica e de micronutrientes
(1).
A compostagem urbana pode suprir essa necessidade e resolver ambos
os problemas das terras exauridas e da falta de nutrientes naturais
no solo, calculada em 6 milhões de toneladas por ano. Apenas
as 35 maiores cidades da Índia poderiam prover 5,7 milhões
de toneladas por ano de adubo orgânico se seu lixo biodegradável
fosse compostado e retornado ao solo. O Gerenciamento Integrado
de Nutrientes (GIN), usando composto urbano associado a adubos químicos,
pode gerar uma enorme economia para o país além de
ajudar a limpar as cidades indianas. Dificilmente haverá
outro programa nacional que possa trazer tamanho benefício,
tanto para o setor urbano quanto para o rural.
Estudos de longo
prazo sobre a agricultura em terras áridas (15 anos, de 1983
a 1997) (2), demonstraram que parcelas usando adubo orgânico
(estrume) associado a adubos químicos propiciaram colheitas
2,5 vezes maiores do que as parcelas de controle, mesmo a longo
prazo. O composto urbano contém todos os 17 micronutrientes
necessários, derivados dos resíduos biodegradáveis
de alimentos, e podem reverter o empobrecimento dos solos indianos.
A aplicação do composto associado a adubos químicos
torna as colheitas mais resistentes a pragas ao fortalecerem os
sistemas radiculares das plantas, ao controlarem a perda de nutrientes
e ao evitarem a poluição por nitratos das águas
subterrâneas. Os adubos orgânicos desempenham um papel
vital na manutenção de uma biologia favorável
nos solos e na otimização das suas condições
físicas (3). O composto urbano também pode equilibrar
os solos excessivamente ácidos ou alcalinos, melhorando sua
fertilidade.
Falta
apoio municipal
As Regras Municipais
para Resíduos Sólidos, editadas em 2000 (4), exigem
que "os resíduos biodegradáveis devem ser processados
por meio de compostagem, ou minhocultura, ou biodigestão
anaeróbia, ou por outro meio biológico apropriado
para obter a sua estabilização como húmus”.
O prazo final especificado para o estabelecimento, nos municípios,
de instalações apropriadas para o processamento do
lixo biodegradável ficou agendado para 31 de dezembro de
2003.
A produção
e a venda do composto urbano não são necessariamente
uma função da administração municipal,
mas precisam ser privatizadas para alcançar maior eficiência
e segurança. Muitos empresários já se dedicam
a essa atividade, e muitas empresas de compostagem já estão
implantadas, quase todas em terras públicas cedidas a custos
baixos. Essas empresas esperam recuperar seus investimentos em 5
a 7 anos, mas estão enfrentando grandes problemas para produzir
composto a partir de lixo orgânico que não foi coletado
suficientemente separado dos resíduos inorgânicos,
e para comercializar e distribuir seu produto. O governo permanece
indiferente ao problema desses produtores de composto (com problemas
de capital de giro, dada a sazonalidade da demanda pelo produto)
e às necessidades dos agricultores (que precisam do produto
no tempo adequado, na quantidade necessária, e a preços
acessíveis).
A
demanda dos agricultores é alta
Os agricultores
na Índia têm usado o lixo orgânico doméstico
em seus campos de cultivo há séculos. Hoje existe
tal carência desse recurso que os produtores chegam a pagar
propina para que os motoristas dos caminhões de transporte
de lixo descarreguem, em suas terras, os resíduos que transportam.
Sem serem adequadamente compostados e cobertos, esses resíduos
em processo de putrefação atraem ratos e insetos que
transmitem doenças, e cachorros sem dono que não apenas
transmitem raiva (hidrofobia) e parasitas, mas também formam
bandos que atacam animais domésticos à noite, mordem
pessoas e causam acidentes de trânsito durante o dia. Infelizmente,
os agricultores esperam receber composto urbano de alta qualidade
tão barato, ou até mesmo grátis, como recebem
esse lixo cru, em busca dos benefícios trazidos por seu conteúdo,
ainda que baixo, de nitrogênio, fósforo e potássio.
O
uso eficiente do composto urbano
Se o lixo urbano
fosse compostado adequadamente, antes de ser aplicado ao solo, as
cidades ficariam mais limpas, os campos ao redor delas evitariam
ter seus solos empobrecidos e degradados, inclusive pelo acúmulo
de resíduos plásticos, e a saúde e a higiene
nas áreas periurbanas melhorariam significativamente. É
difícil imaginar uma solução mais favorável
para todos os atores envolvidos do que essa.
Entretanto,
existe primeiro a necessidade de os pesquisadores agrícolas
incluírem padrões específicos para o uso do
composto urbano em seus “esquemas de práticas”
para cada tipo de cultivo. Os padrões para o uso do composto
estão sendo finalizados a partir de um seminário nacional
realizado em abril de 2003. Em segundo lugar, existe a necessidade
de tornar o composto disponível para os produtores, criando
unidades de compostagem mais descentralizadas, perto dos locais
onde ele será usado nos períodos de maior demanda,
por exemplo. Os produtores e distribuidores de adubo estão
em melhor situação para entender as necessidades dos
agricultores, e para conceber soluções, uma vez que
eles tenham assumido as necessidades e os benefícios do GIN.
Financiando
a produção de composto
A Associação
Indiana de Fertilizantes, o principal grupo que defende os interesses
dos produtores de adubos químicos, dedica-se intensamente
em proteger os subsídios massivos que sua indústria
recebe do governo (Rs 142.500 milhões = US$ 3 bilhões,
anualmente), subsídios que aliás não chegam
a beneficiar os agricultores. Essa situação está
provocando um crescente debate no país. Apenas 12% desse
subsídio anual atenderia todo o capital necessário
para implantar unidades de produção de composto nas
400 maiores cidades indianas (que incluem as cidades com populações
acima de 100.000 pessoas) e permitiriam a produção
de 5,7 milhões de toneladas por ano de adubos orgânicos.
O GIN também reduziria custos com divisas estrangeiras e
aliviaria o balanço de pagamentos, já que imensas
quantidades de fósforo e de potássio são importadas
anualmente. Além disso, o governo da Índia gasta Rs
43,19 milhões com subsídios ligados apenas a esses
dois nutrientes.
Enfatizar o
uso GIN de adubo urbano, que pode ser produzido por todo o país,
pode ser uma estratégia bem sucedida se um esforço
inter-ministerial focalizado nesse objetivo for feito. Entretanto,
a despeito do fato de o “Departamento de Fertilizantes”
ter sido renomeado para “Departamento de Manejo Integrado
de Nutrientes” há um ano, nenhuma mudança na
sua política foi implementada até agora. A criação
de um grupo de trabalho formado por técnicos do Ministério
da Agricultura deverá permitir, em breve, a formulação
de um Plano de Ação para implementar ações
de GIN.
Ignorando
os benefícios
Os verdadeiros
benefícios econômicos do uso do composto, como o melhoramento
da qualidade dos solos, retenção da água, atividade
biológica, conteúdo de nutrientes e safras com maior
resistência a doenças e pragas, são igualmente
ignorados tanto pelos formuladores de políticas públicas
quanto pelos fabricantes de fertilizantes. Os produtores de fertilizantes
ainda não perceberam que prevenir o esgotamento dos solos
e recuperar solos degradados iria, na verdade, aumentar o tamanho
de seu mercado e sua parcela no mercado de adubos químicos,
que atualmente está ameaçado pela globalização
e por preços internacionais que pressionam para baixo os
valores que eles gostariam de cobrar por seus produtos. Como as
maiores indústrias de fertilizantes pertencem ao governo,
outra ameaça é a política oficial, recentemente
adotada, de fechar as empresas públicas deficitárias
e reduzir os investimentos mesmo naquelas lucrativas.
A
produção e a comercialização do composto
urbano
Possuir suas
próprias centrais de produção de composto seria
a melhor opção para a indústria de fertilizantes.
Essa também seria uma iniciativa muito mais eficaz para o
governo, do ponto de vista administrativo, do que a atual política
de subsídios.
As fábricas
de fertilizantes existentes que implantassem uma divisão
de produção de composto, terceirizando operações
se necessário, seriam muito mais lucrativas do que as empresas
dedicadas unicamente a essa atividade, por que as fábricas
de fertilizantes já têm os recursos humanos e os conhecimentos
técnicos necessários para implantar as unidades de
compostagem. Elas também poderiam usar essas centrais de
compostagem para deduzir impostos, demandando uma depreciação
de 100% no custo dessas instalações por conta da redução
da poluição urbana, bem como a dedução
de 100% nos lucros obtidos pela venda do composto. Além disso,
elas poderiam requerer vários subsídios estatais disponíveis
para atividades voltadas para a recuperação dos solos
agrícolas.
A comercialização
do composto associado à uréia (adubo químico
rico em nitrogênio) pode tornar-se um investimento de longo
prazo com custos mínimos para as indústrias de fertilizantes,
considerando-se que elas já possuem suas amplas redes de
venda e distribuição por todo o país, com acesso
a instalações de armazenamento mantidas pelo governo
que são vedadas para as empresas produtoras exclusivamente
de composto.
Iniciativas
propostas de políticas públicas
O que é
preciso, imediatamente, é um amplo programa de experiências
de campo, integrado por institutos como o Conselho Indiano de Pesquisas
Agrícolas e por todas as indústrias produtoras de
fertilizantes, para estabelecer as melhores práticas e proporções
para o uso combinado do composto urbano e fertilizantes químicos
para os diversos cultivos e tipos de solo.
Os Centros Nacionais
de Desenvolvimento de Biofertilizantes estão para ser transformados
em Institutos Nacionais de Agricultura Orgânica, e deverão
ser usados para promover o GIN e o uso combinado de insumos orgânicos
e minerais.
Também
existe uma grande necessidade para desenvolver padrões aceitáveis
para o composto urbano. Não apenas devem ser especificados
os limites para a presença de metais pesados, nas regras
que regulam o manejo de resíduos sólidos, mas outros
aspectos relacionados à presença de sementes de plantas
invasoras e de patógenos, presença de nutrientes,
capacidade de retenção de água etc. Tais padrões
são também importantes para rebater rumores negativos
estimulados pelos interesses contrários à prática
da compostagem como recurso natural e barato para promover a fertilidade
do solo.
Tanto o governo
central quanto os estaduais devem exercer uma política pró-ativa
de aquisição do adubo urbano produzido. Todas as cidades
que tenham seu lixo orgânico devidamente compostado devem
ser obrigadas, por políticas públicas, a comprar de
volta pelo menos 30% de todo o composto produzido para usar em seus
parques e jardins, ou para recuperação de áreas
degradadas, melhoramentos urbanísticos, aterros, plantios
de árvores em logradouros públicos e viveiros de produção
de mudas.
Atualmente,
as empresas produtoras de composto que precisam de capital de giro
financiado por bancos, devido à sazonalidade da demanda por
parte de seu mercado e ao alto custo de manter estoques de composto
à espera da época quando surgem os compradores, não
conseguem usar esses estoques como garantia para tomar crédito,
devendo hipotecar suas instalações e terrenos, que
valem cerca de 10 a 20 vezes mais que o empréstimo buscado,
como garantia. Esse tipo de política creditícia precisa
ser revisto.
O financiamento
agrícola deve ser alterado para incluir a compra, pelo governo,
de grandes quantidades de composto a serem encaminhados aos produtores
no início da época de plantio. O custo desse insumo
seria deduzido, pelo governo, do valor a ser pago nas compras que
faz dos produtores. O uso do composto deve ser apoiado semelhantemente
a outras ajudas, como os subsídios para transporte e disponibilidade
de armazenamento para a uréia e fertilizantes químicos,
caso se queira mesmo viabilizar o GIN.
Também
é necessário discutir melhor as várias opções
para processar o lixo orgânico. Hoje a prática conhecida
como “energia a partir do lixo” (Waste-to-Energy - WTE)
está sendo muito promovida como uma alternativa à
compostagem, pelo Ministério de Energias Não Convencionais,
a despeito dos fracassos verificados nas instalações
construídas para viabilizar essa prática e dos escândalos
envolvendo as imensas quantias destinadas a subsidiá-la.
A pressão, exercida por empresas estrangeiras e agências
de desenvolvimento internacional, para promover tecnologias de WTE
que já estão sendo descontinuadas no exterior, é
muito grande, e constitui-se em sério impedimento para que
as cidades possam decidir-se objetivamente a favor da opção
prevista em lei e muito mais viável, ou seja, a transformação
do lixo em composto.
Finalmente,
a compostagem precisa ser vista pelos formuladores de políticas
não apenas como uma opção entre outras para
o processamento e disposição do lixo urbano, mas também
como uma necessidade imperativa para a reciclagem dos nutrientes
e melhoramento do solo em uma economia marcantemente agrícola.
Notas
- TERI = Tata
Energy Research Institute. Looking Back to Think Ahead: Green
India 2047, p. 285.
- UAS = University
of Agricultural Sciences, Bangalore : All-India Co-ordinated Research
Project on Dryland Agriculture, quoted in Down To Earth Magazine,
15 de novembro de 2001.
- FAI's Fertiliser
News, abril de 1997, p. 66.
- Municipal
Solid Waste (Management & Handling) Rules 2000, editado pelo
Ministério de Ambiente e Florestas do Governo da Índia
em 25 de setembro de 2000.
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