Departamento de
Geografia - Universidade Estadual de Maringá ![]() |
| Volume 5 Número 3 | Jul/Ago/Set 2001 |
ISSN 1415-0646 |
| TÍTULO | AGRICULTURA URBANA EM PRESIDENTE PRUDENTE |
| AUTOR | Isabel Maria Madaleno |
| ATIVIDADE | Instituto de Investigação Científica Tropical. Lisboa . Portugal |
Resumen: A prática de actividades primárias em meio urbano passa despercebida aos observadores menos atentos, mas o cultivo de quintais e espaços poupados pelas construções é frequente, sobretudo nas cidades dos países em desenvolvimento, sendo até estimulado pelo poder local. Um levantamento efectuado numa urbe do interior do Estado de São Paulo, no Brasil, em finais de 1999 provou a actualidade e o dinamismo da agricultura urbana. Localizada numa região dominada pela pecuária, na cidade abundam as hortas, os lotes ocupados pela mandioca, milho e feijão, os vasos de plantas medicinais, as capoeiras de fundo de quintal e os pés de prolíficas fruteiras. À imagem de outras cidades estudadas por distintos investigadores, a agricultura urbana prudentina é biológica e contribui de forma positiva para o ecossistema urbano
Palabras-clave: .Agricultura urbana; Brasil; Cultivos de subsistência; Produção vegetal; Pecuária; Plantas medicinais
Introdução
Agricultura urbana é expressão que designa o conjunto das actividades desenvolvidas para produção, processamento e comercialização de bens alimentares ou de espécies vegetais e animais úteis ao Homem, desenvolvidas no interior ou na periferia das cidades, através da utilização de métodos intensivos e com reutilização de resíduos produzidos nas áreas urbanas.
Essas actividades socioeconómicas não devem ser vistas isoladamente, mas no contexto das economias local e regional, das formas de ocupação e de uso dos solos urbanos, dos sistemas de gestão urbana e até de sistemas de produção e de distribuição alimentares mais globais. Eis porque nos preocuparemos neste artigo por dar uma visão mais abrangente das economias brasileira e paulistana, por procurar no tempo a explicação para as formas de ocupação dos solos prudentinos, por aprofundar as técnicas e modos de produção vegetal e animal empregues no município, por caracterizar os agricultores urbanos inquiridos na Primavera austral de 1999.
Os estudos da agricultura urbana constituem uma nova preocupação por actividades bem vetustas. Com efeito, é inegável que desde sempre se cultivaram espaços intraurbanos e periferias urbanas, com o intuito quer de prover as cidades com cultivos frescos, como de permitir a reciclagem dos desperdícios nelas produzidos. Foram as sucessivas revoluções industriais e o crescente e intenso processo de urbanização do Planeta, que geraram a separação funcional do campo e da cidade. Mas se essa separação se consumou de forma relativamente pacífica nos países mais industrializados, nos países em desenvolvimento os vegetais e os animais continuaram a ser produzidos ou criados nas áreas urbanas (UNDP 1996).
Com efeito, se é verdade que actualmente metade da população mundial vive em cidades, isso não significa que todos os seus residentes tenham renunciado à prática da agricultura. Aliás, no geral, todas as funções de produção estão representadas nas cidades, sendo que algumas dominam em determinado momento da sua história – como a indústria nas urbes ocidentais, no séc. XIX – mas não anulam, apenas reduzem as outras. A este respeito Le Goff fala em desruralização da cidade no século XIX e em desindustrialização urbana no séc. XX (Le Goff 1999). Que nos reservará o século XXI?
Sabemos que a taxa de urbanização da América Latina é já comparável à dos países desenvolvidos, sendo o caso brasileiro paradigmático. Em 1996 cerca de 78,4% da população do Brasil vivia em áreas urbanas, enquanto quinze áreas metropolitanas registavam mais de um milhão de habitantes. A maior era São Paulo, com mais de 16 milhões de residentes, metrópole que aspira ao título de capital do Mercosul e é, de facto, a capital económica e financeira do país. Sede das grandes corporações nacionais e lugar preferido para instalar as filiais das maiores transnacionais do mundo, São Paulo deve a sua hegemonia financeira à monocultura do café que dominou a região entre o início do séc. XIX e a terceira década do séc. XX. Os lucros da cafeicultura foram o grande suporte da industrialização do Brasil, pois foram reinvestidos em indústrias de substituição das importações, dentre as quais de destacam a têxtil, a cimenteira e, a partir do final dos anos de 1950, a indústria automóvel (Godfrey 1999).
Contudo, tanto São Paulo como o Rio de Janeiro (a segunda maior cidade do país) têm experimentado nos últimos anos uma desaceleração no seu ritmo de crescimento, não só devido à diminuição das taxas de natalidade, mas ao decréscimo das migrações internas. Presidente Prudente, como muitas cidades interiores do Estado de São Paulo, vem beneficiando do efeito de repulsão pela grande metrópole paulistana, imputável ao congestionamento do tráfego, à poluição, às crescentes taxas de criminalidade, à inadequação das infraestruturas físicas e sociais da tentacular cidade, à estagnação do mercado de trabalho e ao aumento do custo de vida. Estes factores vêm desestimulando a migração para a capital económica do país e têm tornado atractivas as cidades intermédias (100 000 a 500 000 habitantes) que pululam à sua volta.
O município de Presidente Prudente
A cidade de Presidente Prudente localiza-se a 22º07’ ao Sul do Equador e a 51º23’ a Oeste do Meridiano de Greenwich. Fica a cerca de 450 metros de altitude e dista 558 Km de São Paulo. Só foi fundada no início do séc. XX (1917), mas a região em que se insere foi ocupada desde a segunda metade do séc. XIX por migrantes do vizinho Estado de Minas Gerais, os quais procuravam terras de mata virgem ou de cerrado, no então chamado Sertão do Paranapanema, que pudessem ocupar, retalhar e vender.
Vagas de fazendeiros e posseiros foram subsequentemente atraídos pela promessa de terras férteis onde pudessem praticar a cafeicultura, na época em que a oligarquia agrária (os "barões do café") dominava no vale do Paraíba, por vastas porções do Estado de São Paulo e governava o país. A colonização do extremo ocidental do território paulistano foi grandemente facilitada por uma legislação complacente, que favorecia ilegalidades de toda a ordem, cometidas em nome do avanço da actividade agro-exportadora que sustentava a economia nacional (Paulino 1997).
Em 1921, criou-se o município de Presidente Prudente, inicialmente com uma superfície de 20 000 Km2. Cedo se construíram redes viárias e uma linha férrea (por expansão da Estrada de Ferro de Sorocaba) que ainda hoje liga a cidade à capital estadual. Aliás, esse eixo ferroviário constituíu, por longo tempo, uma via de penetração da civilização numa área inóspita, outrora habitada por índios que foram escorraçados ou dizimados pelos primeiros colonos. Note-se que muito antes da opção político-económica brasileira pelo transporte rodoviário e de se gizar o plano nacional de construção de rodovias (anos 50), o Estado de São Paulo desenvolvera já a sua própria rede ferroviária, ultrapassando a barreira da Serra do Mar e penetrando bem para o interior do país.
Assim, nas terras do Sertão do Paranapanema, expressão que designa no Brasil regiões agrestes, de mata virgem, distantes do aconchego dos povoados litorais, sitas algures no interior do país, praticou-se até à década de 1930 uma actividade monocultora, em propriedades de média ou pequena dimensão (60,4% das propriedades tinham menos de 60 ha). Com a decadência do cultivo da rubiácea, seguiram-se breves ciclos económicos como o algodoeiro, planta com ciclo vegetativo curto e menos exigente em capital, seguido do amendoim, com baixa exigência de nutrientes e que se adaptou bem as solos degradados pela malvácea.
Nenhuma destas culturas teve, porém, a capacidade de ocupar o vazio deixado pelo café como a pecuária, pois exige pouca mão-de-obra e requere parcos investimentos. A criação de gado de corte, ou seja, destinado à produção de carne, onde se destacam os mestiços das raças zebuínas, domina ainda hoje por toda a Região Oeste do Estado de São Paulo. As explorações praticam a pecuária extensiva sobre pastagens de Brachiária, capim Rhodes, jaraguá, capim elefante, colonião e alfalfa que cobrem a imensidão das chapadas (Medeiros 1996).
Toda a região sita entre os rios Paraná e Paranapanema, está assente em rochas sedimentares Mesozóicas, intercaladas por eruptivas básicas do Paleozóico, mormente arenitos e basaltos. O clima é tropical, quente e húmido, com menos de 3 meses secos. A mata frondosa e cerrada de antanho, onde vivia e se alimentava numerosa fauna, desapareceu quase totalmente por via da intensa exploração de madeiras, das actividades agrícola e pecuária.
O município de Presidente Prudente, actualmente bem menor do que aquando da sua fundação (554 Km2) é ainda uma das maiores unidades administrativas do Estado de São Paulo. Menos da quarta parte da sua área é ocupada pelo espaço ínsito no perímetro urbano, ou seja, pela cidade de Presidente Prudente. O remanescente é constituído por chácaras, sítios e fazendas de gado.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), recolhidos pelo Censo Agropecuário de 1995-96, cerca de 91,5% dos estabelecimentos agrícolas têm menos de 100 ha de superfície e correspondem a 48,1% da zona rural do município; 8% dos estabelecimentos têm entre 100 e 1000 ha; apenas 0,4% das explorações têm áreas superiores aos 1000 ha e ocupam 13,8% do município. A concentração fundiária é aqui menos evidente do que na região a que pertence ou mesmo do que no país, onde 90% das propriedades rurais têm menos de 100 ha mas correspondem a exíguos 21,2% da superfície agricultável do Brasil (IBGE 1996).
No que respeita à dimensão humana, o município de Presidente Prudente censou 165 484 residentes no Censo Demográfico de 1991. Em 1996 uma estimativa do IBGE divulgava já 169 036 indivíduos distribuídos por oito distritos urbanos. Somente 5,27% da população activa do município se dedicam exclusivamente à agropecuária, 3,1% dos quais residentes na zona rural prudentina e os restantes moradores dentro do perímetro urbano (IBGE 1991).
A agropecuária praticada na zona rural municipal
Desde a década de 1940 vem-se registando a diminuição das pequenas unidades de produção agrícola, no município de Presidente Prudente. A expulsão dos pequenos proprietários rurais, descapitalizados e desprovidos de esperança, a que se foram juntando, ao longo do tempo, os rendeiros e trabalhadores rurais, por sua vez expulsos por uma actividade predominantemente pecuária, com parcas exigências de mão-de-obra, vem alimentando movimentos migratórios em direcção às cidades próximas, à custa, em grande parte, do esvaziamento do campo.
O aspecto mais visível dessa mudança de utilização das terras foi a substituição da floresta primitiva e das áreas cultivadas por extensas pastagens. Em 1940, o município tinha 61,4% da sua superfície coberta por matas. Actualmente, as reservas florestais correspondem a 2,1% da zona rural municipal. Quanto às áreas cultivadas, com lavouras temporárias ou permanentes, representam hoje apenas 8,7%, enquanto as pastagens, naturais ou plantadas, que alimentam o gado prudentino cobrem 84,8% da zona rural (IBGE 1996).
Os ciclos de culturas comerciais marcam ainda nos dias de hoje as exíguas terras de lavoura. Em 1996, o município produziu 39,9 toneladas de café, 236,9 toneladas de algodão e 63,1 toneladas de amendoim. Outra cultura importante tem sido o tomate, tendo-se registado 222,9 toneladas de produção no ano em questão. Para além destes cultivos, típicos de uma agricultura de rendimento, produzem-se culturas de subsistência, merecendo especial destaque o milho (1726 ton. em 1996), seguido do feijão e do arroz, a base da alimentação brasileira. Saliente-se que os hortícolas, cultivados especialmente nas áreas periurbanas, ocupam somente 6,5% das propriedades rurais prudentinas, que neste subsector declararam um lucro de 416 000 reais (cerca de 347 000 dólares) em 1996. A alface, o agrião, o repolho, o almeirão e a cebolinha são as produções que merecem referência (IBGE 1996).
Um dado negativo, do ponto de vista ecológico, se recolhe da actividade agrícola praticada na zona rural prudentina: cerca de 37% dos estabelecimentos utilizam fertilizantes químicos como insumo e 84,3% utilizam agrotóxicos. Um estudo mais detalhado, realizado no mesmo ano do Censo Agropecuário, e a cuja análise nos devotaremos em seguida, registou valores bem mais elevados, ou seja, em pouco mais de metade dos estabelecimentos que inquiriu aplicavam-se com regularidade correctivos químicos aos solos. O custo destes inputs na actividade agrícola é muito elevado e permite compreender a decadência da lavoura em benefício da pecuária, só que os custos ambientais são ainda mais onerosos para toda a sociedade prudentina.
Em 1995, a pesquisadora brasileira Eliane Tomiasi Paulino fez um levantamento das explorações agropecuárias da zona rural de Presidente Prudente. Dos 915 estabelecimentos censados pelo IBGE ela inquiriu 148. Dentre as unidades visitadas só 11,5% eram exclusivamente agrícolas, no geral de pequenas dimensões (71% tinham menos de 10 ha). Verificou igualmente que cerca de 67,5% dos proprietários, arrendatários ou feitores entrevistados dedicavam mais de dois terços da superfície da sua propriedade à pecuária. A pesquisadora concluiu, ainda, que nas relações de trabalho dominava a exploração familiar, por vezes com a ajuda de um ou dois assalariados permanentes e mão-de-obra temporária variável. Os mecanismos de comercialização da produção impunham a figura do intermediário, sendo baixo o percentual dos produtores que vendiam directamente ao consumidor, mau grado a proximidade do núcleo urbano de Presidente Prudente (Paulino 1997).
De acordo com o último censo, a zona rural prudentina conta 55 426 cabeças de gado bovino, o que dá uma média de 1,3 cabeças por hectare. Cerca de três quartas partes do gado criado destinam-se exclusivamente à produção de carne. O leite retirado do gado remanescente tem vindo a ser canalizado para os mercados local e regional, mormente através duma cooperativa de lacticínios – a Cooperativa de Lacticínios Vale do Paranapanema, com sede na cidade de Presidente Prudente. Em contrapartida, a criação de aves é negligenciável (42 aves declaradas aos agentes do recenseamento), inclusive inferior à registada por nós dentro da cidade.
A cidade de Presidente Prudente
Sita numa zona de chapada, levemente ondulada pela presença de numerosos córregos e ribeiros, a cidade de Presidente Prudente apresenta desníveis de pouco mais de 80 metros, preferindo as classes social e economicamente mais favorecidas as áreas mais elevadas, as colinas de esplendorosas vistas, dotadas de ares mais saudáveis e menos propensas a cheias e enxurradas, destituídas de mosquitos ou outros insectos indesejáveis.
As áreas mais escarpadas e as mais baixas, como ditam as regras do mercado, estão reservadas às populações de rendimentos mais baixos. Ademais, como temos vindo a registar em estudos feitos por todo o Brasil, os pobres residem nas áreas periféricas enquanto os ricos preferem as partes mais centrais (Madaleno 1996; 1999). Ora foi precisamente nos bairros da periferia, de ocupação recente, que registámos a existência de lotes intraurbanos cultivados por rendeiros, ocupantes ou invasores, indivíduos quase sempre do sexo masculino, aposentados ou desempregados, com antecedentes rurais.
No geral trata-se de lotes de terra desocupados por entre casas isoladas e moradias, devido ao facto de o proprietário não haver tido disponibilidade financeira para construir um imóvel. Noutros casos, trata-se de terrenos municipais ou estaduais, terras públicas que a Secretaria da Agricultura e Abastecimento (SEAGRI) cede de bom grado a quem as quiser tratar.
O projecto "Alimente Prudente" foi accionado em Outubro do ano de 1997 pela Prefeitura da cidade. Os objectivos são a conservação e limpeza de áreas desocupadas e ociosas, existentes dentro do tecido urbano ou na periferia, tarefas demasiado onerosas para o poder público. Inclui o fornecimento de um tractor para preparo do solo, a doação de sementes e mudas originárias da "horta municipal", assim como apoio técnico aos agricultores interessados em produzir alimentos.
A maior parte dos lotes que visitámos, em finais de 1999, ostentavam hortícolas como alfaces, almeirão (Chicorium intybus), cebolinha (Alliumfistulosum) e também batata-doce, milho, mandioca e feijão. Por via de regra, a superfície cultivada variava entre 500 e 1000 m2. Este projecto, inicialmente previsto para fomentar plantios comunitários, transformou-se rapidamente numa acção social de combate à fome, ao desemprego, à miséria de famílias residentes próximo dos lotes desocupados, as quais chegam a solicitar a intervenção da Prefeitura na celebração de acordos com proprietários de outras terras baldias, a fim de aumentarem a área agrícola de que dispõem, numa relação quase amorosa com a terra, as mais das vezes fruto de um passado rural.
Não deve surpreender o sucesso do projecto municipal de estímulo à agricultura urbana, pois mais de metade da população brasileira vive abaixo do limiar de pobreza. O aumento excessivo do preço dos bens alimentares, devido a ciclos inflacionários que têm minado a economia deste gigante sul-americano, tem tido reflexos negativos na alimentação e saúde das famílias, que em números crescentes se refugiam nas cidades.
A iniciativa do poder local prudentino tem, assim, contribuído não só para integrar mão-de-obra ociosa, mas também para melhorar a nutrição dos agregados familiares, através do consumo de cultivos de autosubsistência, ou por meio da aquisição a baixo preço, directamente ao produtor, de leguminosas e hortaliças. Para além dos benefícios sociais, são consideráveis os benefícios ambientais, já que a actividade em análise ajuda a preservar os solos e as reservas genéticas, cria espaços de infiltração da água das abundantes chuvas, produz oxigénio e embeleza a cidade.
A agropecuária praticada nos espaços intraurbanos
Presidente Prudente recebe continuamente migrantes, sobretudo das zonas rurais do Estado de São Paulo, como vimos, ou dos limítrofes (Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso do Sul) e muitos nordestinos, eternos peregrinos em busca de esperança, levados pela fome de miséria em miséria, pregressos resistentes numa vida de gado, mas sempre felizes. Uma parte importante desses migrantes dedica-se às actividades primárias dentro da urbe, como verificámos em levantamento efectuado em 1999.
Dada a inexistência de mapas de uso do solo urbano prudentino suficientemente detalhados ou de dados estatísticos concludentes a respeito da prática da agricultura dentro do perímetro urbano, socorremo-nos, à imagem de estudos anteriormente realizados em Belém do Pará (Madaleno 1999), duma amostragem à agricultura urbana, tendo inquirido 280 famílias, aleatoriamente distribuídas pelo espaço urbano, residentes em 5 dos 8 distritos em que se divide a cidade, o que totalizou um universo populacional de 1150 indivíduos (0,68% do total).
Em cada agregado procurámos entrevistar o membro que mais se dedicava ao amanho da terra, donde resultou termos inquirido 94 homens e 186 mulheres. O predomínio do elemento feminino é comum a outros estudos desenvolvidos neste e noutros continentes, sobre as actividades em apreço, já que para a mulher o quintal funciona como um prolongamento da cozinha, onde ela colhe os vegetais e procura os condimentos que usa na confecção das refeições que a família consome e lenitivos para todos os males.
Estas considerações conduzem-nos a uma outra questão - a do tamanho da propriedade. Cerca de 31% dos espaços cultivados tinham menos de 50 m2. Metade tinha entre 50 e 500 m2. Só 16,4% das famílias cultivavam terras com dimensões superiores aos 500 m2. São valores consentâneos com o cadastro urbano, já que com a excepção das chácaras da periferia, os lotes maiores raramente ultrapassam os 1000 m2. Em espaços tão diminutos, pratica-se normalmente uma agricultura de subsistência, razão que justifica que somente 2,1% dos entrevistados tenha declarado vender tudo o que produzia, enquanto 10,4% afirmaram praticar uma agricultura mista.
Verificámos que cerca de 76,5% das famílias inquiridas ganhavam menos de 7 salários mínimos por mês (menos de 500 dólares). A necessidade de complementar a dieta diária com cultivos frescos, suplementos vitamínicos e até de manter uma reserva de chás e mezinhas para mitigar as dores e diminuir os gastos com a farmácia (vide quadro I), leva os agregados a cultivar hortícolas (que ocupavam 46,4% dos espaços visitados), plantas medicinais (55,7%) e plantas fruteiras (encontradas em 86,8% dos espaços intraurbanos cultivados). Essa necessidade é ainda mais imperiosa no grupo das famílias que percebem menos de 3 salários mínimos (cerca de 215 dólares mensais), os quais de outra forma se veriam obrigados a despender 2/3 dos seus rendimentos com a nutrição.
No geral, os cultivos intraurbanos não são irrigados sendo a sua adubação maioritariamente orgânica, feita de restos de folhas e de gravetos, cascas de frutos e outros desperdícios das cozinhas, enterrados ou reduzidos a cinzas, e ainda pelas barbas do milho colhido e excrementos de animais, quer os avícolas que alguns criam (17% dos espaços visitados) ou o esterco de boi comprado nas propriedades rurais da periferia. Apenas 9,1% dos agricultores urbanos entrevistados usavam adubação química; portanto, e de acordo com a norma, a agricultura intraurbana prudentina é biológica, com frequente reciclagem de resíduos o que contribui de forma positiva para o ecossistema urbano.
Quanto ao nível cultural dos inquiridos, registámos com interesse que 12,5% tinham um grau universitário; 49,3% o 1º grau (4 anos de escolaridade); 18,6% o ensino secundário; apenas 18,2% eram analfabetos. A prática da agricultura independe do grau de escolaridade, embora esteja mais frequentemente associada aos estratos culturais mais baixos. No domínio socioprofissional os trabalhadores dos serviços eram os melhor representados, mas o empenho no amanho da terra é mais vulgar por entre os que vivem numa inactividade forçada. É o caso dos pensionistas e aposentados (29,3% dos inquiridos), dos desempregados (4,3%) e, de certa forma também, das donas de casa (25,7%).
Tal como registáramos em Belém, as actividades primárias prudentinas não são temporárias nem ocasionais. Mais de metade dos quintais e lotes urbanos são cultivados há mais de 10 anos e 35,7% há mais de 20 anos. Cerca de dois terços dos quintais são explorados pelos legítimos proprietários e somente 13,2% são alugados. Mesmo no caso dos rendeiros, ocupantes ou invasores de lotes periféricos (20% dos espaços visitados), o trabalho devotado à lavoura é intenso, a vigilância contra possíveis roubos e destruições constante, a preocupação com práticas conservacionistas (como o cultivo seguindo as curvas de nível) notável.
Quadro I – Principais produções agrícolas dos quintais e lotes urbanos de Presidente Prudente
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Frutos, Plantas Medicinais, Hortícolas e Raízes |
% Espaços Inquiridos |
| Cebolinha (Allium fistulosum L.) |
34,3% |
| Boldo (Peumus boldus Mol.) |
33,2% |
| Manga (Mangifera indica L.) |
32,1% |
| Mamão (Carica papaya L.) |
28,6% |
| Hortelã (Mentha piperita L.) |
24,6% |
| Limão (Citrus medica L.) |
23,6% |
| Mandioca (Manihot esculenta Crantz) |
22,5% |
| Laranja (Citrus sinensis (L.) Osbeck) |
22,5% |
| Acerola (Malpighia punicifolia L.) |
21,4% |
| Salsa (Petroselinum sativum L.) |
20,0% |
| Banana (Musa paradisiaca L.) |
19,6% |
| Goiaba (Psidium guajava L.) |
18,2% |
| Jabuticaba (Myrciaria cauliflora Berg.) |
15,7% |
| Capim santo (Cymbopogon citratus (DC.) Stapf) |
13,2% |
Fonte: Inquérito à agricultura urbana 1999
Conclusão
A vulnerabilidade da maioria da população brasileira a uma notória perda do poder de compra tem tido reflexos a nível da habitação, com a expansão das favelas e a degradação do parque residencial urbano, mas também tem tido repercussões muito graves noutras necessidades básicas, como a alimentação e a saúde. Nessa medida, a agricultura urbana tem vindo a ser socialmente bem aceite no Brasil, pois minora os gastos dos agregados, melhora a nutrição e o bem-estar das famílias, gera emprego e rendimento, tem inegáveis benefícios económicos e ambientais.
Esta análise das actividades primárias desenvolvidas numa cidade média do Estado de São Paulo, veio complementar estudos realizados na capital do estado nortenho do Pará, uma metrópole de formação recente donde também se extraiu uma amostra espacial com recurso a questionário adequado ao levantamento da agricultura praticada nos espaços intersticiais urbanos. Esperamos, assim, contribuir para um melhor conhecimento desta função urbana, normalmente invisível aos observadores menos atentos, escondida por cercas e muros, mas nem por isso menos importante para a sobrevivência das famílias mais carentes.
Bibliografia
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Le Goff, Jacques (1999) "Por Amor das Cidades", Teorema, Lisboa.
Madaleno, Isabel M. (1999) "Agricultura Urbana Praticada na Maior Cidade
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Medeiros, Célia M.S.V. (1996) "O Tradicional e o Moderno na Pecuária de
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Paulino, Eliane T. (1997) "O Limite
das Cercas: desdobramentos da apropriação capitalista da terra e as estratégias
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