As muitas
marias de Três Marias
São 24 canteiros de 12 metros em cada lote. A produção de um deles é destinada a doações, especialmente para as famílias recém-chegadas ao projeto. Todas as famílias que participam do projeto são cadastradas e encaminhadas pelo Centro de Referência da Assistência Social. A produção Estância Familiar impressiona. Por mês, chegam a colher 4,8 toneladas de mandioca, 1,2 toneladas de abóbora, 900 quilos de jiló. Parte da produção é comprada pela prefeitura, com recursos repassados do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), através do programa Compra Direta. Os alimentos produzidos pelas famílias vão diretamente para a merenda das 15 escolas municipais de Três Marias e seis outras entidades como a APAE e o Lar dos Idosos. Isto garante, a cada família, uma renda mínima de R$ 300 mensais. A outra parte da colheita é vendida na comunidade, e a demanda já está maior do que a oferta. Dona Ana Lúcia Alves, de 44 anos, não esconde a satisfação. Segundo ela, costuma ganhar em média outros R$ 600 por mês com a venda de sua produção na cidade. Dona Ana, assim como as demais famílias, já têm uma carteira particular de clientes. Ela é uma das mais antigas no projeto. No início, há quinze anos, os participantes do Estância Familiar plantavam somente para o consumo próprio. A chegada do programa Compra Direta, do Governo Federal, em 2003, impulsionou a vida e a economia daquelas famílias. O secretário Municipal de Assistência Social, Niator Figueiredo, relata outros benefícios que as famílias recebem ao participar do projeto, além do almoço comunitário de todos os dias, feito com os produtos da terra. “Várias pessoas chegaram aqui em estado de profunda depressão”, conta Niator. “No início, não conseguiam nem mesmo se comunicar. Hoje, estão integradas com o grupo, em todas as atividades, e bastante produtivas.” Seu João Marques da Silva que o diga. Os seus 66 anos de idade e as nove cirurgias que fez no intestino não o impedem de trabalhar na horta todos os dias, de sol a sol. Sua especialidade são as batatas. “Ele não faz isto pelo dinheiro”, explica o secretário municipal. “Ele está aqui por que se sente vivo.” Vitória das Marias O pão que integra o café da manhã oferecido diariamente aos trabalhadores da Estância Familiar é produzido pela Cooperativa Vitória das Marias. São 37 mães, muitas delas solteiras, que juntas também produzem biscoitos e doces. De coco, de amendoim e de leite. Parte de seus produtos também vai para as merendas escolares, para refeições hospitalares e do Lar dos Velhinhos. O resto é vendido na cidade. Padrões de qualidade, marketing, distribuição são alguns dos itens que as mães têm que lidar, além de aprenderem o ofício da panificação. A cooperativa está provisoriamente instalada no Sítio da Criança, onde diversos outros projetos da assistência social são realizados. A Casa de Passagem é um deles. É lá que crianças e adolescentes em situação de risco, como as vítimas de abuso e exploração sexual, ficam hospedadas até que seu problema seja resolvido. Tem também o Banco de Leite, uma pequena fábrica de leite de soja, com capacidade de produção de 200 litros por dia. O leite é doado às pessoas pobres, idosos e crianças alérgicas ao leite de origem animal, também encaminhados pelo Centro de Referência, ou Casa das Famílias como costumam chamar. Enquanto as mães da Vitória das Marias trabalham, seus filhos participam da oficina de artes, que acontece ali no mesmo no Sítio da Criança. O espaço já não comporta mais a cooperativa, que já produz 35 mil pães por mês. As mães alternam os dias de trabalho, para garantir a participação de todas. Uma sede própria já dispõe de terreno, planta e parte dos recursos para sua construção. Eles são oriundos do governo, em suas três instâncias, e da iniciativa privada, como a empresa Votorantin. O município de Três Marias é um exemplo prático do que se está querendo implantar com o Sistema Único de Assistência Social. Em parceria com o MDS, a prefeitura mantém um CRAS (Centro de Referência da Assistência Social) ou Casa das Famílias. Lá ficam duas assistentes sociais e duas psicólogas, além do pessoal de apoio. Trata-se da porta de entrada para o serviço social, onde as famílias são primeiramente recebidas, cadastradas e encaminhadas, de acordo com suas necessidades. Para se ter uma idéia, 80% das ações judiciais do município são atendidos pelo serviço de Assessoria Pública Municipal, também instalada no CRAS. Três Marias também tem o programa Agente Jovens, com 56 meninos e meninas na faixa etária de 16 a 18 anos, e o Sentinela, que trabalha com crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Ao contrário dos números e histórias da Cooperativa Vitória das Marias ou da Estância Familiar, o Sentinela não se orgulha de sua estatística Criado em junho de 2002, o programa já atendeu a 113 casos. “As histórias do Sentinela não são bonitas”, conta Valquíria Aparecida Silva, psicóloga que coordena o projeto. “Elas se tornam bonitas no momento da virada, quando a família e a vítima se mobilizam, com o apoio do Sentinela, para superar o problema”. Três marias namoradeiras, que não sabiam nadar Situada às margens do rio São Francisco, a 250 quilômetros de Belo Horizonte e a 450 de Brasília, Três Marias é uma cidade jovem, com 40 anos de idade. Segundo o IBGE, sua população é de 25 mil habitantes. Os trimarienses discordam. Afirmam que são 30 mil moradores. Conta a lenda que o nome do município é uma homenagem a três irmãs que costumavam atravessar o velho Chico para ir namorar e que um dia morreram afogadas, quando seu barco afundou. Quem duvida pode perguntar pro Seu Miguel Roque. Ele tem 105 anos, está totalmente lúcido e, dentre outras histórias, conta que conheceu pessoalmente as três moças. |