A agricultura
urbana consiste no cultivo de vegetais e criação de
animais domésticos (incluindo a criação de
peixes) dentro dos limites (agricultura intra-urbana) ou na imediata
periferia (agricultura peri-urbana) de uma cidade, visando principalmente
a produção de alimentos para os seus habitantes. É
uma prática difundida mundialmente, tanto nas grandes metrópoles
quanto nas cidades menores, e que tem sido apoiada por diversos
governos e agências internacionais.
As atividades produtivas desenvolvidas dentro da área urbana
e peri-urbana são extremamente diversificadas. Os principais
fatores que determinam o quê e como será cultivado
são os recursos individuais ou familiares e a disponibilidade
de terra. A cultura, as tradições, mercado, disponibilidade
de água, condições climáticas (temperatura,
precipitação, exposição ao sol), condições
do solo, tamanho da área e distância das residências,
também são de extrema importância na definição
da atividade adotada.
As principais atividades conduzidas em sistemas urbanos são
horticultura, criação de animais, agrofloresta, aqüicultura,
vermicultura e o cultivo de plantas medicinais, ervas, condimentos
e cogumelos. A horticultura é a modalidade predominante e
inclui o cultivo de hortaliças, flores e outras plantas ornamentais.
A criação de animais (galinhas, porcos, coelhos, gado
leiteiro, patos, entre outros) tem se apresentado como importante
fonte de proteína a partir da carne e laticínios,
bem como fonte de esterco para os fertilizantes orgânicos
ou combustíveis. A agrofloresta inclui o plantio de árvores
e arbustos para fins alimentares (frutos) e para produção
de madeira para ser usada como combustível e material de
construção. A aqüicultura consiste na criação
de peixes e outros frutos do mar em ambientes controlados como tanques
e lagoas, bem como o cultivo de plantas aquáticas, muito
comum nos países da África e Ásia. A apicultura
visa a obtenção de cera e mel e é mais comum
em áreas peri-urbanas; a criação de minhocas
(ou vermicultura) tem por objetivo a alimentação de
galinhas e peixes e a produção de composto.
A produção de alimentos dentro das cidades pode se
dar em espaços abertos, públicos ou privados, e tem
o potencial de aumentar a eficiência do uso da terra urbana
e diminuir o risco de redução ou mesmo interrupção
no fornecimento de alimentos às pessoas, pela dificuldade
de aquisição dos mesmos em decorrência das flutuações
salariais e limitações econômicas. Dentre os
benefícios sociais alcançados com a prática
da agricultura urbana, estão a possibilidade de melhoria
na qualidade dos alimentos ingeridos pelas pessoas mais pobres,
especialmente crianças, idosos e gestantes, e a criação
de alternativa de renda e emprego para os habitantes.
A conservação dos recursos naturais, proporcionada
pela menor demanda por combustíveis fósseis e pela
conservação dos espaços verdes, além
da reciclagem de resíduos são as grandes vantagens
ambientais da prática da agricultura urbana.
As atividades agrícolas praticadas nas cidades, por serem
basicamente dependentes do trabalho humano, necessitam muito menos
do uso de operações mecanizadas, consumindo, portanto,
menor quantidade de combustíveis fósseis, tanto para
a produção como para a comercialização
dos produtos, em função da proximidade com o mercado
consumidor.
A criação e a conservação de áreas
verdes são de grande valor estético, contribuindo
para a melhoria da qualidade de vida da população.
A limpeza e a revegetação de terrenos baldios, ou
o seu uso para o plantio e outras formas de produção,
também proporcionam a diminuição da proliferação
de vetores de doenças, contribuindo para o controle das mesmas.
Os espaços verdes ajudam a manter a diversidade biológica
e a manutenção de ecossistemas saudáveis através
da garantia de sobrevivência de elementos fundamentais como
pássaros, insetos, minhocas e organismos do solo. Desempenham
também uma importante função na redução
da poluição do ar, uma vez que as folhagens atuam
como filtros naturais para a poeira e demais poluentes, e na modificação
do microclima urbano pelo fornecimento de sombra e aumento da umidade
em áreas de clima árido. A contenção
de encostas e a redução da probabilidade de ocorrência
de desabamentos através do plantio e manejo adequados de
certas árvores, arbustos e gramíneas, que também
podem ser destinadas à produção de combustível
vegetal, são outros benefícios ambientais das práticas
de agricultura urbana.
Os principais benefícios ambientais da agricultura urbana
são representados pela reciclagem de resíduos sólidos
e águas residuais, uma vez que as cidades produzem grandes
quantidades de lixo e esgoto. As práticas de agricultura
urbana podem absorver quantidades significativas de resíduos
sólidos e líquidos, ajudando a reduzir os custos e
problemas do manejo destes. A reciclagem das águas residuais
possibilita a diminuição dos problemas causados pela
descarga de esgoto em oceanos, rios, lagoas e canais. Plantas aquáticas
podem ser utilizadas no tratamento biológico dessas águas,
removendo metais pesados e outros poluentes, podendo também
ser usadas como biomassa para a produção de compostos
e combustíveis.
Apesar dos enormes benefícios socais e da sustentabilidade
ambiental que podem ser proporcionadas pela prática da agricultura
urbana, existem vários fatores limitantes e cuidados que
devem ser considerados na prática dessa modalidade, para
que a mesma não atue como poluidora do ambiente ou tenha
os seus produtos contaminados.
Uma das preocupações diz respeito à ocupação
de espaços e áreas física e biologicamente
instáveis, como florestas e encostas, por exemplo. A manutenção
de espaços urbanos naturais, sem cultivos, é importante
para a conservação e regeneração da
vida selvagem. O cultivo e pastejo excessivos em áreas urbanas
podem acelerar processos erosivos em áreas como as encostas.
A atividade agrícola urbana compartilha, com a população
das cidades, os recursos ar, solo e água. Desta forma, há
a possibilidade de mau uso da água distribuída publicamente,
incluindo os seu desvio, desperdício e contaminação.
O risco de contaminação dos alimentos produzidos é
outra fonte de cuidados, uma vez que os solos utilizados para o
plantio estão sujeitos à contaminação
por organismos patogênicos e metais pesados, estes últimos
principalmente nas áreas localizadas nas proximidades das
rodovias e indústrias.
Os produtos químicos utilizados na agricultura e liberados
na atmosfera, como os pesticidas, também são outra
fonte de contaminação do ar, solo e alimentos, sendo
potencialmente danosos não só às pessoas, mas
para outras espécies nos ecossistemas urbanos. Da mesma forma
que na agricultura praticada no meio rural, a aplicação
excessiva e imprópria de inseticidas, herbicidas e fertilizantes
pode contaminar os alimentos, as plantas ornamentais, o solo, as
águas superficiais e o lençol freático.
A criação intensiva de animais é outra atividade
que pode prejudicar os habitantes das cidades. A lixiviação
de resíduos sólidos e líquidos pode promover
a contaminação das águas sub-superficiais e
os animais poder ser vetores de doenças transmitidas pela
carne e pelo leite. Odores desagradáveis, ruídos e
riscos de engarrafamentos no tráfego são outros problemas
resultantes da criação de animais em ambientes urbanos
densamente povoados.
O uso não regulamentado de resíduos sólidos
não compostados ou de águas residuais não tratadas
para fins de irrigação ou alimentação
animal também constitui riscos à saúde e ao
ambiente. O lixo reciclado pode conter elementos químicos
tóxicos, bem como os resíduos industriais.
A solução e/ou prevenção destes e de
outros problemas potenciais decorrentes da prática da agricultura
urbana incluem a combinação de informação,
orientação, monitoramento, fiscalização
e regulamentação, baseadas em estruturas legais e
administrativas e em cooperação com os produtores
urbanos. Portanto, para que as importantes metas de fornecimento
de alimentos saudáveis e a baixo custo sejam alcançados
pela agricultura urbana, os sistemas de produção devem
ser tais que não promovam ou agravem os problemas de contaminação,
tanto do ambiente quanto dos próprios alimentos, constituindo,
primordialmente, métodos bem adaptados às condições
locais.
(07/01/04)