Agricultura
urbana e Desenvolvimento:
A experiência mexicana
Manon
Boulianne
Pesquisador associado à “Chaire” de pesquisa e desenvolvimento
comunitário Universidade de Quebec em Hull
Título: Agriculture urbaine et développement : l'expérience
mexicaine
Revista: Nouvelles pratiques sociales
Número: Volume 13, número 1, 2000. « Le «
nouveau » travail social… »
URL: http://www.erudit.org/revue/nps/2000/v13/n1/000008ar.html
Todos os direitos de reprodução, tradução
e adaptação reservados © Presses de l'Université
du Québec (PUQ), 2000
Tradução: Joaquim Moura - jmoura@hotmail.com
/ www.agriculturaurbana.org.br
Resumo
Nos países
do Sul, desde o início dos anos 1970, a agricultura urbana
tornou-se objeto de um número crescente de intervenções
por parte de agências públicas e de organizações
não governamentais (ONGs). Esses intervenções
se incluem, em geral, dentro de projetos de desenvolvimento social
para as populações pobres identificadas como beneficiárias.
Certas iniciativas são “toutefois” realizadas por
organizações populares nascidas dos movimentos sociais
urbanos. Associadas à uma economia social, elas se inserem
em uma dinâmica de desenvolvimento econômico comunitário.
É o que nós temos observado por ocasião de uma
pesquisa realizada junto a várias organizações
mexicanas.
Há alguns anos, Smit (1996) considera-se que a popularidade
crescente da agricultura urbana como um meio de luta contra a pobreza
e a insegurança alimentar no terceiro mundo corria o risco
de tornar-se uma medida genérica de assistência social,
se não se investisse nas populações locais para
fazer dela uma ferramenta para o desenvolvimento local sustentável.
O México não escapava a essa tendência [1].
As quatro iniciativas mexicanas apresentadas neste artigo confirmam
esta hipótese.
Os dados provêm de observações in situ e de entrevistas
realizadas quando da visita ao México no verão de 1998,
graças à bolsa de pesquisa pós-doutorado do Centro
de Pesquisas para o Desenvolvimento Internacional. (CPDI). Essa visita
se incluía na estrutura de um projeto sobre hortas comunitárias,
as formas de socialização e cidadania em Québec
e no México (ver Boulianne, 1998). O estágio pós-doutorado
teve lugar no Centro de Pesquisas sobre Inovações Sociais,
Empresas e Sindicatos (CRISES)[2].
Nas páginas
seguintes, descrevemos duas iniciativas que podem ser ser consideradas
como de abordagem «assistencialistas». Esse tipo de intervenção,
que contribui para a promoção social dos indivíduos,
contribui ao mesmo tempo para a manutenção das desigualdades
sociais. Essa descrição permitirá esclarecer
algumas de suas características do ponto de vista de seus promotores,
do grau de autonomia das organizações envolvidas, e
das relações sociais ligando os participantes e os implementadores
[3].
Outras duas iniciativas
que descreveremos a seguir incluem-se, ainda que em graus diferentes,
em uma dinâmica de desenvolvimento local e de mudanças
sociais. Sua descrição irá realçar que
elas estão estreitamente ligadas ao movimento urbano popular
e se inscrevem em um projeto social compartilhado por seus protagonistas,
que os distinguem do mero assistencialismo.
Horticultura e promoção social: os projetos das ONGs
de desenvolvimento
As
hortas de Tepoztlán
A cidade de Tepoztlán,
que possui cerca de 25.000 habitantes, situa-se a 80 km a sudoeste
da cidade do México. Encaixada no centro de uma cadeia de montanhas
com formas excêntricas chamada Tepozteco, a cidade desfruta
de um clima agradável durante todo o ano.
Em 1997, uma ONG local denominada Luna Nueva, iniciou um projeto de
alimentação alternativa visando estimular a auto-produção
familiar de hortaliças nas casas das populações
mais pobres. Fundada no final dos anos 1980 e dirigida por três
mexicanos originários da classe média, essa organização
está voltada principalmente para as mulheres. O projeto, financiado
em sua maior parte pela Fundação Kelloggs, insere-se
em uma intervenção mais ambiciosa que que possui três
“volets”: nutrição, microempreendedorismo
e produção hortícola. O eixo hortícola
foi introduzido após um primeiro ano de sensibilização
das mulheres e das crianças para a problemática nutricional.
A cultura de plantas medicinais e comestíveis no espaço
doméstico era uma prática comum no México pré-hispânico
(San Vicente, Cebada e Rojas, 1998 : 189). Em algumas cidades, ela
sobreviveu até os nossos dias (Burns, 1998). Os dois agrônomos
e o técnico em horticultura “embauchés”
pela Luna Nueva na estrutura do projeto propuseram a implantação
de hortas próximas às residências, estimulando
os Tepoztecos a revitalizar essa prática. De pequeno tamanho
(1 m x 1,5 m) e cultivados de acordo com um método orgânico
intensivo, essas pequenas hortas permitem obter-se resultados rapidamente,
estimulando assim o interesse das famílias participantes.
Três oficinas de formação, distribuídas
durante a estação produtiva, foram oferecidas. Os responsáveis
efetuam visitas de acompanhamento às residências. Para
encorajar os esforços dos horticultores, lhes são oferecidas
mudinhas de plantas, além de sementes, desde o início
da implantação das hortas. Porém, para ter direito
a receber essa ajuda, os moradores devem preparar o terreno, usando
cerca de 40kg de composto fornecido pelo projeto. Caso necessário,
a ONG Luna Nueva oferece também tela para proteger a horta
dos roedores e “chapardeurs”.
Em razão da relativa facilidade de seu cultivo, de seu valor
nutritivo, do lugar que já ocupam na cultura alimentar local
e da viabilidade de sua consorciação, dez espécies
foram priorizadas: brócolis, beteraba, nabo, “coriandre”,
alface, cebola, “bette à cardes”, cenoura, “courgette”
e feijão. Os responsáveis produziram e distribuíram
um folheto criado especialmente para o projeto, contendo informações
técnicas essenciais para o cultivo dessas espécies.
O projeto se estende por dois anos. O objetivo definido para o primeiro
ano: instalar 180 hortas no município. Na cidade de Tepoztlán,
o recrutamento dos eventuais participantes foi feito por meio de convites
lançados com ajuda dos alto-falantes instalados nas capelas
e igrejas existentes nos bairros populares. As pessoas interessadas
podem se inscrever após uma reunião informativa realizada
nas próprias igrejas. As oficinas de treinamento foram realizadas
na casa de algum voluntário. Essa pessoa “recebe”
a primeira horta, para servir de demonstração. Nela,
prepara-se o terreno, depositam-se as sementes e plantam-se as mudinhas.
Se bem que esse programa seja aberto a todos, as mulheres participam
em número bem maior do que os homens (70 %). No plano quantitativo,
os resultados obtidos superaram os objetivos fixados. Porém
muitas pessoas que iniciaram suas hortas as abandonaram por falta
de conhecimentos suficientes para lidar com imprevistos; deixados
sozinhos, os hortelões e hortelãs não conseguem
grande sucesso. Como são só três assistentes técnicos
para fornecer orientação para tantos produtores, de
modo individualizado, a sua tarefa é colossal e de certo modo
impossível. E isso, “d'autant plus” que a prioridade
é estabelecer novas hortas para respeitar os “échéanciers”
apresentados ao “bailleur” de fundos.
Mesmo se a ONG por trás desse projeto seja local, ele representa
“néanmoins” uma intervenção de desenvolvimento
«de cima para baixo». Os «beneficiários»
não participaram nem no planejamento nem no treinamento dos
outros moradores, nem na continuidade do processo. Tudo isso permanece
sob total responsabilidade dos administradores e do pessoal empregado
pela ONG. Os grupos, constituídos para facilitar o trabalho
de treinamento, não têm qualquer vida própria
afora os encontros de formação. Praticamente não
há contato entre os participantes. Enfim, as limitações
de tempo relacionadas com as condições de financiamento
do projeto deixam pouco espaço para o surgimento de dinâmicas
sociais mais sustentáveis.
Assim, apesar da intenção da Luna Nueva de dar aos participantes
as ferramentas necessárias para prosseguir com suas atividades
produtivas de modo autônomo, esse objetivo só foi alcançado
de modo parcial. Um fenômeno semelhante produziu-se no âmbito
de um projeto voltado para a implantação de hortas em
contenedores, no México.
As
hortas em contenedores
Recriar o ciclo
natural em miniatura e de modo intensivo e acelerado é a proposta
do projeto de hortas em contenedores implementado pelo Centro de Pesquisa
e Formação Rural (CEDICAR[4]) estabelecido em Xochimilco,
ao sul da cidade do México. Esta ONG conta com dois membros
ativos que são também os seus fundadores. Sendo ambos
agrônomos, eles lecionam na Universidade e militam em várias
organizações mexicanas que agrupam produtores, intelectuais
e agentes sociais. Um financiamento proveniente da cooperação
internacional e de fundações privadas nacionais e e
estrangeiras permitem ao CEDICAR desenvolver várias atividades
diferentes de pesquisa e de difusão de métodos de recuperação
e produção alimentar ecologicamente viáveis.
A “instar”
da Luna Nueva, o CEDICAR visa criar um hábito de auto-produção
de hortaliças orgânicas nas residências das famílias
mais pobres. Desde 1994, a ONG intervém nos bairros populares
do sul da capital para fazer a promoção de um sistema
de produção adaptado aos meios urbanos onde as construções
tomam praticamente todo o espaço existente. A fórmula
se baseia sobre uma prática feminina já estabelecida
que consiste em cultivar plantas medicinais e ornamentais (babosa,
por exemplo), em contenedores de plástico, vidro ou metal.
Os empregados do CEDICAR utilizam “seaux” de plástico
de 20 litros doados por um supermercado local e pneus usados que eles
transformam em jardineiras. De acordo com o coordenador do programa,
uma horta com sete contenedores pode fornecer 15 % das necessidades
de hortaliças de uma família com cinco pessoas, se for
bem cultivado. Multiplicando-se os contenedores, pode-se alcançar
a auto-suficiência em hortaliças.
O CEDICAR oferece uma formação técnica de 12
horas-aula. As aulas têm lugar na casa de um voluntário.
As pequenas hortas em contenedores não são distribuídas
gratuitamente. Uma soma equivalente a oito dólares canadenses
é cobrada quando uma horta típica é organizada
em cada casa. Esta soma não cobre totalmente os custos, sendo
que o restante de seu valor é coberto por um financiamento
externo.
O recrutamento é feito por meio de grupos pré-existentes.
Esses podem ser comitês de cidadãos, grupos de mães
cujos filhos freqüentam a mesma creche ou escola, membros de
uma biblioteca municipal etc. Baseia-se portanto sobre redes existentes
para organizar um círculo produção e distribuição
de sementes para se assegurar a sustentabilidade das atividades de
horticultura independentemente da presença do CEDICAR. Em parceria
com uma outra ONG, são oferecidos também cursos de nutrição
para os participantes do projeto de horticultura. Nutrição
e produção orgânica são, portanto, estreitamente
ligados, como no programa da ONG Luna Nueva.
Mais de 800 pessoas já adquiriram hortas em contenedores do
CEDICAR, mas a proporção delas que continuam praticando
é mínima. A hipótese do coordenador do CEDICAR
“voulant” que se criem relações mais solidárias
ao redor das hortas não pareceu confirmar-se. Como em Tepoztlán,
os participantes esperam a visita do agrônomo para receber mudas
e sementes. Nesse sentido, a autonomia desejada que permitiria realizar-se
um ciclo produtivo e recomeçar um outro novo, não foi
alcançada.
Essas duas iniciativas têm sobretudo “retombées”
para os indivíduos que delas participam e, em menor escala,
para suas famílias. Assim, foi notado que alguns membros das
residências envolvidas, que assumem a responsabilidade pelo
trabalho nas hortas, tiram delas uma grande “fierté”
e uma satisfação evidente, principalmente as crianças,
as pessoas com alguma deficiência física ou intelectual,
ou, ainda, as mulheres mais velhas originárias do meio rural.
Para algumas delas, a horticultura permitiu sua revalorização
ao desempenharem um novo papel ativo em suas casas, de retomar o controle
da cozinha que estava nas mãos de uma filha ou de uma nora.
Para as pessoas com deficiência, a horticultura representa uma
atividade acessível e criativa.
Os produtos da horta são consumidos principalmente pelos membros
do domicílio ou da família ampliada que pode viver em
outro local urbano. Nesse último caso, os “dons”
contribuem para reforçar os laços de família.
Esses dois projetos, entretanto, não provocaram a dinâmica
particular no meio comunitário e a “auto-suficiência
sustentável” nas casas dos participantes continua longe
de ser alcançada. Em última análise, os beneficiários
desses dois projetos tornam-se dependentes de ONGs que lhes apóiam,
e essas ONGs continuam dependendo de recursos internacionais. Com
as atividades de agricultura urbana desenvolvidas por organizações
populares, os resultados são bem diferentes, como o veremos
a seguir.
Empresas
coletivas de agricultura urbana
Um empreendimento ecológico de mulheres em Cuernavaca
O parque industrial
de Cuernavaca situa-se próximo a um conjunto residencial dito
“popular”, que abriga famílias de média
e baixa renda. O acesso ao solo, à habitação,
à infraestrutura urbana e aos serviços públicos
tem estado sempre no centro reivindicações e das lutas
coletivas travadas pela população local para melhorar
suas condições de vida. Como é o caso em todo
o México, as mulheres são as principais protagonistas
dessas lutas (Massolo, 1998). Desde o fim dos anos 1980, a qualidade
do ambiente urbano juntou-se a essas preocupações. Os
bairros da zona industrial da cidade ganharam, então, em 1987,
uma organização de defesa ambiental.
Em 1996, um grupo de mulheres dessa área urbana, participantes,
em sua maioria, de organizações eclesiais de base [5]
, procuraram uma ONG local para obter ajuda para organizarem uma empresa
coletiva de produção de composto urbano. A ONG «Comunicação,
Troca e desenvolvimento humano na América Latina» (CIDHAL),
uma organização feminista fundada em 1969, tem por missão
promover a participação política e social das
mulheres e a igualdade entre os sexos. Pioneira nessa luta no México
e na América Latina (Suarez e Van Remmen, 1996), ela conquistou,
desde há alguns anos, uma grande experiência ambiental.
A ajuda solicitada originou a elaboração de um projeto
compreendendo três “volets”:
1. um treinamento ambiental;
2. uma reflexão sobre a situação de gênero
das mulheres mexicanas;
3. um treinamento de técnicas de produção de
adubo orgânico.
Objetivo: iniciar
uma empresa produtiva e «ecológica» que contribua
para transformar as relações sociais nas quais se engajem
as mulheres, com uma perspectiva de “empoderamento” individual
e coletivo. O CIDHAL desempenha um papel de apoio nessa “démarche”
e obtém uma subvenção do ministério do
desenvolvimento social do México para equipar a empresa com
a infraestrutura necessário para seu funcionamento.
O centro de compostagem situa-se sobre um lote privado medindo cerca
de 40 m2 emprestado para o grupo por uma das participantes. Lá
é realizada a maior parte das atividades de treinamento e de
produção. Durante a primeira fase do projeto, que durou
um ano, as mulheres seguiram em grupo as atividades de formação
e iniciaram, individualmente, em suas casas, a separação
e compostagem do lixo orgânico doméstico. No início,
cada participante recebeu um pacote com minhocas decompositoras. Na
segunda fase, iniciada em 1998, as participantes investiram na empresa
coletiva uma quantidade de minhocas igual à que lhes foi cedida
no início do projeto, o que permitiu a continuidade e a ampliação
das atividades no centro de compostagem, e mantiveram em suas casas
a quantidade excedente, resultante da atividade reprodutiva das minhocas.
Esse centro
reunia cerca de quinze mulheres no verão de 1998. Esse grupo
agia dentro de uma estrutura democrática, informal e consensual,
e de uma organização flexível de trabalho onde
domina o princípio da igualdade.
Sem que tivesse sido previsto no início, várias mulheres
utilizaram seu composto doméstico para cultivar hortaliças.
Elas teriam desejavam cultivar uma horta coletiva, mas a pequena área
do terreno emprestado não permitiu. Elas então cultivavam
as hortaliças principalmente em pequenos contenedores em suas
próprias casas. No momento, o composto é comercializado
em pequena escala. A renda é reinvestida na empresa. Se tudo
correr bem, prevê-se, para um futuro próximo, a distribuição
da renda produzida entre as mulheres participantes. Como o número
de horas de trabalho fornecidas por cada mulher é contabilizado
mas de modo pouco sistemático, a dúvida é como
uma divisão justa dessa renda será possível.
Nesse ponto, a natureza muito informal da organização
acaba produzindo um problema.
A política de apoio às organizações populares
adotada pelo CIDHAL prevê que após três anos os
grupos apoiados devem se tornar auto-suficientes.
No verão de 1998, depois de 18 meses de trabalho, tornou-se
necessário desenvolver a capacidade de gestão das participantes
do centro de compostagem. Concebeu-se uma oficina de formação
em administração de microempreendimentos, que não
obteve o apoio de todas as participantes. Com efeito, algumas delas
concebiam o centro como um local de trocas, de formação
e reflexão; mas não tinham necessariamente vontade de
criar uma empresa voltada ativamente para o mercado. Porém
muitas outras organizações populares formadas por mulheres
(Zapata e Mercado, 1996), preferiam agregar atividades produtivas
voltadas para o mercado. Essa dinâmica nasce muitas vezes do
impulso de programas públicos de desenvolvimento cujo eixo
é a promoção da economia social.
Apesar de sua curta existência, o centro de compostagem de Cuernavaca
já causou mudanças notáveis nas casas de suas
participantes. Seus esforços coletivos para melhorar o ambiente
do bairro, a produção de hortaliças e a geração
(eventual) de renda tornaram seu trabalho mais visível pelo
conjunto. Realmente, elas “ont franchi” as fronteiras
da economia doméstica (ao se reunirem em um espaço aberto)
e superaram os papéis de gênero que lhes eram socialmente
indicados, mesmo se as atividades empreendidas (cuidados com o ambiente,
alimentação) sejam tradicionalmente ligados às
mulheres. Em casa, as mudanças de papéis ficaram bastante
evidentes. Aliás, sua participação nas atividades
de treinamento e formação contribuiu para o desenvolvimento
de uma consciência política mais aguda. Ela se traduziu
por um reforço de sua militância nos movimentos populares
urbanos (manifestações, reivindicações
ambientais, etc.).
A
ecologia social no México
O Centro comunitário
de educação e ação ambiental Miravalle
(CECEAMI) é formado por sete pessoas (quatro mulheres e três
homens) que fazem a promoção da ecologia social. Dedica-se
a um conjunto de ações que objetivam melhorar a qualidade
ambiental envolvendo a população local, que se beneficia
diretamente.
Miravalle é um bairro popular onde vivem 10 mil pessoas, perto
das encostas do vulcão Guadalupe, a sudeste da cidade do México.
Lá existem agora quatro grupos de moradores ativos nos projetos
de desenvolvimento comunitário. Eles recebem apoio de jovens
profissionais que vieram morar na área. Em 1994, esses grupos
se integraram para formar a Coordenação Comunitária
de Miravalle (COCOMI). Seus principais objetivos são assumir
a responsabilidade pelo desenvolvimento da coletividade, melhorar
a qualidade de vida no bairro e transformar as relações
de gênero.
O grupo de ecologia social constitui um dos quatro componentes da
COCOMI. Uma loja comunitária administrada por mulheres, um
centro de saúde comunitária e um grupo de educação
de adultos representam os outros componentes da COCOMI.
Os membros do grupo de ecologia social cultivam uma horta comunitária
medindo 2.500 m2, situada na periferia do bairro. Ali são cultivados
várias espécies como feijão, nabos, cenouras,
alfaces, “coriandre“ e nopales [6]. Esse terreno deveria
servir para a construção de uma escola secundária
administrada por irmãos Maristas. Em 1993, a área foi
desapropriada pela prefectura da cidade do México para a criação
de uma reserva ecológica, proibindo-se qualquer edificação
em toda a área. Ainda orientados pelos irmãos Maristas,
um grupo de pais de alunos solicitou e conseguiu o uso desse terreno
para o plantio de alimentos por métodos orgânicos. Eles
o desbravaram e o cultivaram coletivamente. Em 1994, o grupo de ecologia
social tornou-se responsable pela área e a mayor parte do terreno
foi subdividido em lotes individuais medindo cerca de 500 m2 cada.
Desde então,
as atividades do grupo promotor de ecologia social tornaram-se bem
diversificadas. Além do cultivo dos lotes individuais, os membros
do grupo se dedicam, coletivamente, à produção
de húmus de minhoca. O conselheiro técnico do grupo
– um jovem agrônomo que mora no bairro – tem esperança
que esta atividade possa tornar-se uma fonte de renda para os membros
do grupo. A venda de húmus de minhoca ainda não permite
a distribuição de valores fixos aos membros, e atualmente
preferiu-se a criação de um fundo mútuo do qual
os membros podem tomar empréstimos em caso de necessidade (doenças,
morte na família etc.). De 1994 a 1998, o grupo obteve subvenções
de uma fundação privada mexicana e da embaixada do Canadá
para desenvolver suas atividades.
Além disso, os membros do grupo de ecologia social recuperam
os resíduos orgânicos que sobram nas mercearias e mercados
do bairro. Eles sensibilizam a população com relação
a suas atividades promovendo atividades ligadas à problemática
ambiental. Eles também dão cursos de horticultura biológica
para “enseignants”, aos pais e aos alunos das escolas
maternais e de ensino fundamental instaladas nas vizinhanças.
Hoje é comum encontrar-se pequenas hortas nessas escolas.
O grupo trabalha também em colaboração com outros
integrantes do COCOMI. Por exemplo, em conjunto com o grupo de educação,
que se dedica principalmente à alfabetização
de adultos, foram organizadas sessões de formação
em horticultura para jovens “décrocheurs”. Além
disso, os membros do grupo ensinam àqueles da clínica
comunitária de saúde a reconhecerem plantas tendo propriedades
curativas, enquanto aprendem com eles a transformá-las em produtos
medicinais. Enfim, eles compartilham com as mulheres que administram
o bazar comunitário os conhecimentos adquiridos sobre os benefícios
de certos “denrées” pouco valorizados pelo mercado
(como a soja e o “amaranto”) e essas então aparecem
a seguir sobre o “comptoir” do bazar.
O grupo de ecologia social está organizado em bases democráticas.
As decisões que têm relação com o conjunto
de membros são tomadas por consenso em reuniões a cada
quinze dias. Todos os membros são elegíveis a postos
de direção. Um representante do grupo tem assento na
reuniões da COCOMI. Seu funcionamento depende da solidariedade
interna do grupo. Realmente, segundo a divisão do trabalho
estabelecida, cada pessoa tem tarefas comunitárias a realizar
(“brassage”, peneiramento do composto, ensacamento, supervisão
das instalações [7]). São feitas freqüentes
“corvées” nos fins de semana para “aménager”
o terreno (por exemplo, por ocasião da construção
de uma “serre” ou de reservatórios para conservar
a água da chuva). Os residentes do bairro são convidados
a participarem. Este tipo de “corvée”, nascido
da tradição do “tequio” originário
da província de Oaxaca, existia nas comunidades indígenas
do México na época pré-hispânica.
As iniciativas trazidas pelo grupo de ecologia social contribuem para
a promoção social dos indivíduos, à criação
de uma economia popular solidária e à transformação
da cultura política no bairro.
Então, no plano do reconhecimento social, nós notamos
uma transformação importante nas casas de certos membros
do grupo. Uma participante, antes tímida e retraída
(ela não sabia ler nem escrever), atualmente tem prazer em
mostrar aos jovens e a seus pais como cultivar um espaço reduzido,
quais folhas e flores são comestíveis, quais as propriedades
curativas das plantas, etc. Além de trabalhar como promotora
da ecologia social, ela também é membro ativa do bazar
comunitário. Essas mudanças não acontecem sem
causar conflitos com seu marido e seus sogros.
No México, ainda é malvista uma mulher que se envolva
com atividades públicas que a façam sair de casa regularmente
(Massolo, 1998 : 195). Mas por nada deste mundo ela iria abandonar
suas atividades comunitárias, por que foram elas que permitiram
sua transformação.
38Um outro membro do grupo, de 50 anos de idade e há muito
desempregado, integrou-se ao trabalho na esperança de aumentar
sua renda. Ele reconhece que não se interessava pelos problemas
da comunidade. Agora ele compartilha das preocupações
com os outros, investe esforços em um projeto em comum e diz
acreditar agora no potencial das ações coletivas.
O grupo de ecologia social representa também uma fonte importante
de aprendizagem e de expressão da solidariedade. Como exemplo,
uma das integrantes decidiu se unir ao grupo depois de ter estado
gravemente doente. Uma vez curada, ela experimentou a necessidade
de assumir uma tarefa que fosse útil para a comunidade. Ela
sonhava com a possibilidade de abrir um pequeno comércio, mas,
considerando que essa iniciativa lhe traria apenas benefícios
individuais, ela preferiu se unir ao grupo para dar espaço
a suas novas intenções humanitárias. Após
somente alguns meses de participação, ela tornou-se
promotora e representante do grupo junto à COCOMI. Ela é
“fière” de suas novas funções e considera
que está sendo realmente útil aos outros.
Através das lutas travadas, no decorrer dos anos, no movimento
popular urbano, os habitantes de Miravalle adquiriram uma experiência
política considerável. Novas formas de solidariedade
surgiram nos grupos da COCOMI. Se a prefeitura quisesse retomar o
terreno do CECEAMI, haveria grande reação, por que os
membros consideram que essa perda seria uma forma de enfraquecer seus
esforços de crescimento coletivo.
Esse projeto,
como aquele das mulheres de Cuernavaca, se situa no prolongamento
dos movimentos urbanos que objetivavam, em um primeiro momento, assegurar
o acesso dos habitantes do bairro a terrenos para construir, à
infraestrutura urbana, e aos serviços públicos.
Paralelamente às reivindicações dirigidas ao
Estado, as atividades de auto-produção têm sido
conduzidas para assegurar melhoramentos no espaço urbano e
na habitação. Com a agricultura urbana, os grupos envolvidos
alargaram seu campo de ação. Eles agora estão
envolvidos com uma atividade produtiva, fonte potencial de renda,
além de capaz de melhorar o meio ambiente de seu bairro. Essas
iniciativas de economia social se inserem em um projeto de desenvolvimento
local baseado nas necessidades e nos recursos locais, e estimulam
a participação das mulheres na vida pública.
Promoção
social, economia solidária e transformação das
relações sociais
Cada uma das quatro
experiências descritas acima é única. Além
de suas diferenças, podem-se destacar alguns aspectos em comum
que permitem caracterizá-los. Os dois primeiros, de tipo assistencialista,
têm vários elementos em comum: 1) a busca de segurança
alimentar; 2) a promoção da horticultura de subsistência
no espaço doméstico; as famílias são as
beneficiárias, 4) uma dimensão coletiva pouco importante,
5) uma intervenção quase sempre pontual; e 6) uma fronteira
estanque entre a organização promotora e as pessoas
participantes/beneficiárias.
Se essas experiências
contribuem para o reconhecimento de certos indivíduos, elas
também “réifient” ao mesmo tempo as relações
assimétricas existentes. Por exemplo, as hortaliças
produzidas em Tepoztlán[8] entram na cadeia informal de distribuição
entre famílias aparentadas. Se considerarmos que a horta está
associada ao papel doméstico feminino, e que “dar tudo
às crianças” faz parte do papel socialmente indicado
a suas mães, vê-se logo que ao invés de discuti-los,
essa doação de hortaliças se insere muito “naturalmente”
nas relações de gênero dominantes socialmente.
Em outras palavras, o trabalho de implantação dessas
hortas é feita de modo a evitar as discussões políticas.
Desse modo, os projetos têm sido “ciblés”
em função da problemática alimentar e dirigidos
principalmente para as mulheres e crianças, que representam
as populações “em risco” com relação
à segurança alimentar. As crianças tornaram-se
assim o objeto de uma intervenção de tipo epidemiológica,
que contribui para “piéger” as mulheres em sua
posição socialmente subordinada, o que é um fato,
paradoxalmente, eminentemente político. Realmente, as mulheres
são encorajadas a produzirem alimentos para os membros de suas
famílias permanecendo sempre no espaço que lhes foi
socialmente atribuído.
Além disso, como já o sublinhamos, as pessoas participantes
ficam dependentes da intervenção de “especialistas”
que detêm o saber técnico e as “intrants”
necessárias para a prática de uma pretensa «auto-produção».
Nesse caso, as hortas tornam-se antes uma medida de “assistência”
do que uma ferramenta de transformação real nas condições
dos interessados. Isso reforça as conclusões de Labrecque
(1997) sobre os projetos de desenvolvimento destinados às mulheres
que contribuem para manter o statu quo nas relações
sociais.
As outras duas experiências são de natureza bem diferente.
Nenhuma está articulada ao redor da problemática da
segurança alimentar, e a transformação das relações
sociais de gênero faz parte dos objetivos visados por seus promotores.
Elas estão firmemente ancoradas no meio, sendo que a organização
coletiva precedeu a introdução dessas atividades produtivas.
Nelas não existem os interventores especializados trabalhando
pelo bem-estar de uma clientela «vulnerável». Essas
duas experiências incluem um “volet” de empreendimento
coletivo. A educação popular, aberta para a comunidade,
nelas tem um papel fundamental. Os participantes são membros
integrais da organização, que repousa sobre uma estrutura
democrática, participativa e solidária onde todos têm
os mesmos direitos e as mesmas obrigações.
Os projetos de hortas domésticas “rejoignent” um
grande número de «beneficiários». Mas se
pode duvidar de sua contribuição para melhorar realmente
as condições de vida ou a instauração
de relações sociais mais igualitárias. Quanto
às iniciativas da agricultura urbana que se inserem em uma
economia social, por que emergem de pequenos grupos já ativos
na cena local, elas contribuem para a transformação
da paisagem urbana e das relações sociais de gênero,
e isso, favorecendo o desenvolvimento de atividades econômicas,
comerciais e não comerciais, organizadas ao redor de redes
locais e regionais. Essas práticas abrem, portanto, perspectivas
novas para o desenvolvimento das comunidades.
Anexo
Tabela 1 - Agricultura urbana e desenvolvimento no
México: elementos para a análise dos casos estudados.
(precisa capturar na internet)
Tabela 2 - continuação
(precisa capturar na internet)
Pesquisar
o significado
Toutefois
Volet
Embauché
Rôdeur
Chapardeur
Coriandre
Courgette
D’autant plus
Échéancier
Bailleur
Néanmoins
Seau
Voulant
Retombée
Fierté
Franchi
Enseignant
Décrocheur
Comptoir
Corvée
Brassage
Aménager
Fiére
Réifient
Ciblé
Piéger
Intrants
Volet
Rejoignent
Bibliografia
- BOULIANNE,
Manon (1999). « Agriculture urbaine, rapports sociaux et citoyenneté
: le cas du jardinage biologique communautaire au Québec
et au Mexique », Cahiers du CRISES , no ES-9917, coll. «
Études de cas d'entreprises d'économie sociale ».
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Notas
- As pesquisas
realizadas no México no campo da agricultura urbana voltaram-se,
até hoje, mais especialmente para os ambientes periurbanos
e para as chinampas tradicionais. As práticas agrícolas
e de criação de animas adotadas pelas famílias
camponesas cujas terras foram incorporadas pela expansão
urbana já foram objeto, já há alguns anos,
de pesquisas e intervenções que visavam a sua adaptação
ao meio urbano (TORRES LIMA, 1998 e 1991). Os chinampas constituem,
por sua vez, um sistema singular de “maraîchage”
cujas origens antecedem a invasão hispânica. Elas estão
agora ameaçadas pela expansão da área metropolitana
da cidade do México, daí o interesse dos pesquisadores
de melhor conhecê-los a fim de projetar um modo de preservá-los
(CANABAL CRISTIANI, 1997). Os projetos de introdução
de atividades agrícolas “auprès” de populações
urbanas empobrecidas, quer sejam trazidos por agências governamentais,
ONGs ou por organizações populares, permanencem entretanto
muito pouco pesquisadas e documentadas.
- Ver BOULIANNE
(1999) para obter uma descrição completa dos resultados
dessa pesquisa.
- Ver a tabela
síntese incluída no fim do texto para se obter uma
visão em conjunto das experiências descritas.
- Em espanhol,
Centro de Investigación y Capacitación Rural A.C.
- Em Cuernavaca,
as comunidades eclesiais de base estão firmemente envolvidas
nas iniciativas locais. Esses grupos, inspirados na “teologia
da libertação”, têm um programa político
social-cristão que estimula a participação
social.
- Trata-se de
um cactus com folhas comestíveis utilizado na cozinha mexicana
já no período pré-hispânico.
- Depois que
as hortaliças começam a crescer, é preciso
tomar conta constantemente, pois os roubos são muito freqüentes.
- O volume de
produção das hortas em contenedores é muito
fraco para gerar excedentes.
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