Agricultura urbana e Desenvolvimento:
A experiência mexicana

Manon Boulianne
Pesquisador associado à “Chaire” de pesquisa e desenvolvimento comunitário Universidade de Quebec em Hull

Título: Agriculture urbaine et développement : l'expérience mexicaine
Revista: Nouvelles pratiques sociales
Número: Volume 13, número 1, 2000. « Le « nouveau » travail social… »
URL: http://www.erudit.org/revue/nps/2000/v13/n1/000008ar.html
Todos os direitos de reprodução, tradução e adaptação reservados © Presses de l'Université du Québec (PUQ), 2000
Tradução: Joaquim Moura - jmoura@hotmail.com / www.agriculturaurbana.org.br

Resumo

Nos países do Sul, desde o início dos anos 1970, a agricultura urbana tornou-se objeto de um número crescente de intervenções por parte de agências públicas e de organizações não governamentais (ONGs). Esses intervenções se incluem, em geral, dentro de projetos de desenvolvimento social para as populações pobres identificadas como beneficiárias. Certas iniciativas são “toutefois” realizadas por organizações populares nascidas dos movimentos sociais urbanos. Associadas à uma economia social, elas se inserem em uma dinâmica de desenvolvimento econômico comunitário. É o que nós temos observado por ocasião de uma pesquisa realizada junto a várias organizações mexicanas.

Há alguns anos, Smit (1996) considera-se que a popularidade crescente da agricultura urbana como um meio de luta contra a pobreza e a insegurança alimentar no terceiro mundo corria o risco de tornar-se uma medida genérica de assistência social, se não se investisse nas populações locais para fazer dela uma ferramenta para o desenvolvimento local sustentável. O México não escapava a essa tendência [1].

As quatro iniciativas mexicanas apresentadas neste artigo confirmam esta hipótese.

Os dados provêm de observações in situ e de entrevistas realizadas quando da visita ao México no verão de 1998, graças à bolsa de pesquisa pós-doutorado do Centro de Pesquisas para o Desenvolvimento Internacional. (CPDI). Essa visita se incluía na estrutura de um projeto sobre hortas comunitárias, as formas de socialização e cidadania em Québec e no México (ver Boulianne, 1998). O estágio pós-doutorado teve lugar no Centro de Pesquisas sobre Inovações Sociais, Empresas e Sindicatos (CRISES)[2].

Nas páginas seguintes, descrevemos duas iniciativas que podem ser ser consideradas como de abordagem «assistencialistas». Esse tipo de intervenção, que contribui para a promoção social dos indivíduos, contribui ao mesmo tempo para a manutenção das desigualdades sociais. Essa descrição permitirá esclarecer algumas de suas características do ponto de vista de seus promotores, do grau de autonomia das organizações envolvidas, e das relações sociais ligando os participantes e os implementadores [3].

Outras duas iniciativas que descreveremos a seguir incluem-se, ainda que em graus diferentes, em uma dinâmica de desenvolvimento local e de mudanças sociais. Sua descrição irá realçar que elas estão estreitamente ligadas ao movimento urbano popular e se inscrevem em um projeto social compartilhado por seus protagonistas, que os distinguem do mero assistencialismo.
Horticultura e promoção social: os projetos das ONGs de desenvolvimento

As hortas de Tepoztlán

A cidade de Tepoztlán, que possui cerca de 25.000 habitantes, situa-se a 80 km a sudoeste da cidade do México. Encaixada no centro de uma cadeia de montanhas com formas excêntricas chamada Tepozteco, a cidade desfruta de um clima agradável durante todo o ano.

Em 1997, uma ONG local denominada Luna Nueva, iniciou um projeto de alimentação alternativa visando estimular a auto-produção familiar de hortaliças nas casas das populações mais pobres. Fundada no final dos anos 1980 e dirigida por três mexicanos originários da classe média, essa organização está voltada principalmente para as mulheres. O projeto, financiado em sua maior parte pela Fundação Kelloggs, insere-se em uma intervenção mais ambiciosa que que possui três “volets”: nutrição, microempreendedorismo e produção hortícola. O eixo hortícola foi introduzido após um primeiro ano de sensibilização das mulheres e das crianças para a problemática nutricional.

A cultura de plantas medicinais e comestíveis no espaço doméstico era uma prática comum no México pré-hispânico (San Vicente, Cebada e Rojas, 1998 : 189). Em algumas cidades, ela sobreviveu até os nossos dias (Burns, 1998). Os dois agrônomos e o técnico em horticultura “embauchés” pela Luna Nueva na estrutura do projeto propuseram a implantação de hortas próximas às residências, estimulando os Tepoztecos a revitalizar essa prática. De pequeno tamanho (1 m x 1,5 m) e cultivados de acordo com um método orgânico intensivo, essas pequenas hortas permitem obter-se resultados rapidamente, estimulando assim o interesse das famílias participantes.

Três oficinas de formação, distribuídas durante a estação produtiva, foram oferecidas. Os responsáveis efetuam visitas de acompanhamento às residências. Para encorajar os esforços dos horticultores, lhes são oferecidas mudinhas de plantas, além de sementes, desde o início da implantação das hortas. Porém, para ter direito a receber essa ajuda, os moradores devem preparar o terreno, usando cerca de 40kg de composto fornecido pelo projeto. Caso necessário, a ONG Luna Nueva oferece também tela para proteger a horta dos roedores e “chapardeurs”.

Em razão da relativa facilidade de seu cultivo, de seu valor nutritivo, do lugar que já ocupam na cultura alimentar local e da viabilidade de sua consorciação, dez espécies foram priorizadas: brócolis, beteraba, nabo, “coriandre”, alface, cebola, “bette à cardes”, cenoura, “courgette” e feijão. Os responsáveis produziram e distribuíram um folheto criado especialmente para o projeto, contendo informações técnicas essenciais para o cultivo dessas espécies.

O projeto se estende por dois anos. O objetivo definido para o primeiro ano: instalar 180 hortas no município. Na cidade de Tepoztlán, o recrutamento dos eventuais participantes foi feito por meio de convites lançados com ajuda dos alto-falantes instalados nas capelas e igrejas existentes nos bairros populares. As pessoas interessadas podem se inscrever após uma reunião informativa realizada nas próprias igrejas. As oficinas de treinamento foram realizadas na casa de algum voluntário. Essa pessoa “recebe” a primeira horta, para servir de demonstração. Nela, prepara-se o terreno, depositam-se as sementes e plantam-se as mudinhas.

Se bem que esse programa seja aberto a todos, as mulheres participam em número bem maior do que os homens (70 %). No plano quantitativo, os resultados obtidos superaram os objetivos fixados. Porém muitas pessoas que iniciaram suas hortas as abandonaram por falta de conhecimentos suficientes para lidar com imprevistos; deixados sozinhos, os hortelões e hortelãs não conseguem grande sucesso. Como são só três assistentes técnicos para fornecer orientação para tantos produtores, de modo individualizado, a sua tarefa é colossal e de certo modo impossível. E isso, “d'autant plus” que a prioridade é estabelecer novas hortas para respeitar os “échéanciers” apresentados ao “bailleur” de fundos.

Mesmo se a ONG por trás desse projeto seja local, ele representa “néanmoins” uma intervenção de desenvolvimento «de cima para baixo». Os «beneficiários» não participaram nem no planejamento nem no treinamento dos outros moradores, nem na continuidade do processo. Tudo isso permanece sob total responsabilidade dos administradores e do pessoal empregado pela ONG. Os grupos, constituídos para facilitar o trabalho de treinamento, não têm qualquer vida própria afora os encontros de formação. Praticamente não há contato entre os participantes. Enfim, as limitações de tempo relacionadas com as condições de financiamento do projeto deixam pouco espaço para o surgimento de dinâmicas sociais mais sustentáveis.

Assim, apesar da intenção da Luna Nueva de dar aos participantes as ferramentas necessárias para prosseguir com suas atividades produtivas de modo autônomo, esse objetivo só foi alcançado de modo parcial. Um fenômeno semelhante produziu-se no âmbito de um projeto voltado para a implantação de hortas em contenedores, no México.

As hortas em contenedores

Recriar o ciclo natural em miniatura e de modo intensivo e acelerado é a proposta do projeto de hortas em contenedores implementado pelo Centro de Pesquisa e Formação Rural (CEDICAR[4]) estabelecido em Xochimilco, ao sul da cidade do México. Esta ONG conta com dois membros ativos que são também os seus fundadores. Sendo ambos agrônomos, eles lecionam na Universidade e militam em várias organizações mexicanas que agrupam produtores, intelectuais e agentes sociais. Um financiamento proveniente da cooperação internacional e de fundações privadas nacionais e e estrangeiras permitem ao CEDICAR desenvolver várias atividades diferentes de pesquisa e de difusão de métodos de recuperação e produção alimentar ecologicamente viáveis.

A “instar” da Luna Nueva, o CEDICAR visa criar um hábito de auto-produção de hortaliças orgânicas nas residências das famílias mais pobres. Desde 1994, a ONG intervém nos bairros populares do sul da capital para fazer a promoção de um sistema de produção adaptado aos meios urbanos onde as construções tomam praticamente todo o espaço existente. A fórmula se baseia sobre uma prática feminina já estabelecida que consiste em cultivar plantas medicinais e ornamentais (babosa, por exemplo), em contenedores de plástico, vidro ou metal. Os empregados do CEDICAR utilizam “seaux” de plástico de 20 litros doados por um supermercado local e pneus usados que eles transformam em jardineiras. De acordo com o coordenador do programa, uma horta com sete contenedores pode fornecer 15 % das necessidades de hortaliças de uma família com cinco pessoas, se for bem cultivado. Multiplicando-se os contenedores, pode-se alcançar a auto-suficiência em hortaliças.

O CEDICAR oferece uma formação técnica de 12 horas-aula. As aulas têm lugar na casa de um voluntário. As pequenas hortas em contenedores não são distribuídas gratuitamente. Uma soma equivalente a oito dólares canadenses é cobrada quando uma horta típica é organizada em cada casa. Esta soma não cobre totalmente os custos, sendo que o restante de seu valor é coberto por um financiamento externo.

O recrutamento é feito por meio de grupos pré-existentes. Esses podem ser comitês de cidadãos, grupos de mães cujos filhos freqüentam a mesma creche ou escola, membros de uma biblioteca municipal etc. Baseia-se portanto sobre redes existentes para organizar um círculo produção e distribuição de sementes para se assegurar a sustentabilidade das atividades de horticultura independentemente da presença do CEDICAR. Em parceria com uma outra ONG, são oferecidos também cursos de nutrição para os participantes do projeto de horticultura. Nutrição e produção orgânica são, portanto, estreitamente ligados, como no programa da ONG Luna Nueva.

Mais de 800 pessoas já adquiriram hortas em contenedores do CEDICAR, mas a proporção delas que continuam praticando é mínima. A hipótese do coordenador do CEDICAR “voulant” que se criem relações mais solidárias ao redor das hortas não pareceu confirmar-se. Como em Tepoztlán, os participantes esperam a visita do agrônomo para receber mudas e sementes. Nesse sentido, a autonomia desejada que permitiria realizar-se um ciclo produtivo e recomeçar um outro novo, não foi alcançada.

Essas duas iniciativas têm sobretudo “retombées” para os indivíduos que delas participam e, em menor escala, para suas famílias. Assim, foi notado que alguns membros das residências envolvidas, que assumem a responsabilidade pelo trabalho nas hortas, tiram delas uma grande “fierté” e uma satisfação evidente, principalmente as crianças, as pessoas com alguma deficiência física ou intelectual, ou, ainda, as mulheres mais velhas originárias do meio rural. Para algumas delas, a horticultura permitiu sua revalorização ao desempenharem um novo papel ativo em suas casas, de retomar o controle da cozinha que estava nas mãos de uma filha ou de uma nora. Para as pessoas com deficiência, a horticultura representa uma atividade acessível e criativa.

Os produtos da horta são consumidos principalmente pelos membros do domicílio ou da família ampliada que pode viver em outro local urbano. Nesse último caso, os “dons” contribuem para reforçar os laços de família. Esses dois projetos, entretanto, não provocaram a dinâmica particular no meio comunitário e a “auto-suficiência sustentável” nas casas dos participantes continua longe de ser alcançada. Em última análise, os beneficiários desses dois projetos tornam-se dependentes de ONGs que lhes apóiam, e essas ONGs continuam dependendo de recursos internacionais. Com as atividades de agricultura urbana desenvolvidas por organizações populares, os resultados são bem diferentes, como o veremos a seguir.

Empresas coletivas de agricultura urbana

Um empreendimento ecológico de mulheres em Cuernavaca

O parque industrial de Cuernavaca situa-se próximo a um conjunto residencial dito “popular”, que abriga famílias de média e baixa renda. O acesso ao solo, à habitação, à infraestrutura urbana e aos serviços públicos tem estado sempre no centro reivindicações e das lutas coletivas travadas pela população local para melhorar suas condições de vida. Como é o caso em todo o México, as mulheres são as principais protagonistas dessas lutas (Massolo, 1998). Desde o fim dos anos 1980, a qualidade do ambiente urbano juntou-se a essas preocupações. Os bairros da zona industrial da cidade ganharam, então, em 1987, uma organização de defesa ambiental.

Em 1996, um grupo de mulheres dessa área urbana, participantes, em sua maioria, de organizações eclesiais de base [5] , procuraram uma ONG local para obter ajuda para organizarem uma empresa coletiva de produção de composto urbano. A ONG «Comunicação, Troca e desenvolvimento humano na América Latina» (CIDHAL), uma organização feminista fundada em 1969, tem por missão promover a participação política e social das mulheres e a igualdade entre os sexos. Pioneira nessa luta no México e na América Latina (Suarez e Van Remmen, 1996), ela conquistou, desde há alguns anos, uma grande experiência ambiental.

A ajuda solicitada originou a elaboração de um projeto compreendendo três “volets”:
1. um treinamento ambiental;
2. uma reflexão sobre a situação de gênero das mulheres mexicanas;
3. um treinamento de técnicas de produção de adubo orgânico.

Objetivo: iniciar uma empresa produtiva e «ecológica» que contribua para transformar as relações sociais nas quais se engajem as mulheres, com uma perspectiva de “empoderamento” individual e coletivo. O CIDHAL desempenha um papel de apoio nessa “démarche” e obtém uma subvenção do ministério do desenvolvimento social do México para equipar a empresa com a infraestrutura necessário para seu funcionamento.

O centro de compostagem situa-se sobre um lote privado medindo cerca de 40 m2 emprestado para o grupo por uma das participantes. Lá é realizada a maior parte das atividades de treinamento e de produção. Durante a primeira fase do projeto, que durou um ano, as mulheres seguiram em grupo as atividades de formação e iniciaram, individualmente, em suas casas, a separação e compostagem do lixo orgânico doméstico. No início, cada participante recebeu um pacote com minhocas decompositoras. Na segunda fase, iniciada em 1998, as participantes investiram na empresa coletiva uma quantidade de minhocas igual à que lhes foi cedida no início do projeto, o que permitiu a continuidade e a ampliação das atividades no centro de compostagem, e mantiveram em suas casas a quantidade excedente, resultante da atividade reprodutiva das minhocas.

Esse centro reunia cerca de quinze mulheres no verão de 1998. Esse grupo agia dentro de uma estrutura democrática, informal e consensual, e de uma organização flexível de trabalho onde domina o princípio da igualdade.

Sem que tivesse sido previsto no início, várias mulheres utilizaram seu composto doméstico para cultivar hortaliças. Elas teriam desejavam cultivar uma horta coletiva, mas a pequena área do terreno emprestado não permitiu. Elas então cultivavam as hortaliças principalmente em pequenos contenedores em suas próprias casas. No momento, o composto é comercializado em pequena escala. A renda é reinvestida na empresa. Se tudo correr bem, prevê-se, para um futuro próximo, a distribuição da renda produzida entre as mulheres participantes. Como o número de horas de trabalho fornecidas por cada mulher é contabilizado mas de modo pouco sistemático, a dúvida é como uma divisão justa dessa renda será possível. Nesse ponto, a natureza muito informal da organização acaba produzindo um problema.

A política de apoio às organizações populares adotada pelo CIDHAL prevê que após três anos os grupos apoiados devem se tornar auto-suficientes.

No verão de 1998, depois de 18 meses de trabalho, tornou-se necessário desenvolver a capacidade de gestão das participantes do centro de compostagem. Concebeu-se uma oficina de formação em administração de microempreendimentos, que não obteve o apoio de todas as participantes. Com efeito, algumas delas concebiam o centro como um local de trocas, de formação e reflexão; mas não tinham necessariamente vontade de criar uma empresa voltada ativamente para o mercado. Porém muitas outras organizações populares formadas por mulheres (Zapata e Mercado, 1996), preferiam agregar atividades produtivas voltadas para o mercado. Essa dinâmica nasce muitas vezes do impulso de programas públicos de desenvolvimento cujo eixo é a promoção da economia social.

Apesar de sua curta existência, o centro de compostagem de Cuernavaca já causou mudanças notáveis nas casas de suas participantes. Seus esforços coletivos para melhorar o ambiente do bairro, a produção de hortaliças e a geração (eventual) de renda tornaram seu trabalho mais visível pelo conjunto. Realmente, elas “ont franchi” as fronteiras da economia doméstica (ao se reunirem em um espaço aberto) e superaram os papéis de gênero que lhes eram socialmente indicados, mesmo se as atividades empreendidas (cuidados com o ambiente, alimentação) sejam tradicionalmente ligados às mulheres. Em casa, as mudanças de papéis ficaram bastante evidentes. Aliás, sua participação nas atividades de treinamento e formação contribuiu para o desenvolvimento de uma consciência política mais aguda. Ela se traduziu por um reforço de sua militância nos movimentos populares urbanos (manifestações, reivindicações ambientais, etc.).

A ecologia social no México

O Centro comunitário de educação e ação ambiental Miravalle (CECEAMI) é formado por sete pessoas (quatro mulheres e três homens) que fazem a promoção da ecologia social. Dedica-se a um conjunto de ações que objetivam melhorar a qualidade ambiental envolvendo a população local, que se beneficia diretamente.

Miravalle é um bairro popular onde vivem 10 mil pessoas, perto das encostas do vulcão Guadalupe, a sudeste da cidade do México. Lá existem agora quatro grupos de moradores ativos nos projetos de desenvolvimento comunitário. Eles recebem apoio de jovens profissionais que vieram morar na área. Em 1994, esses grupos se integraram para formar a Coordenação Comunitária de Miravalle (COCOMI). Seus principais objetivos são assumir a responsabilidade pelo desenvolvimento da coletividade, melhorar a qualidade de vida no bairro e transformar as relações de gênero.

O grupo de ecologia social constitui um dos quatro componentes da COCOMI. Uma loja comunitária administrada por mulheres, um centro de saúde comunitária e um grupo de educação de adultos representam os outros componentes da COCOMI.

Os membros do grupo de ecologia social cultivam uma horta comunitária medindo 2.500 m2, situada na periferia do bairro. Ali são cultivados várias espécies como feijão, nabos, cenouras, alfaces, “coriandre“ e nopales [6]. Esse terreno deveria servir para a construção de uma escola secundária administrada por irmãos Maristas. Em 1993, a área foi desapropriada pela prefectura da cidade do México para a criação de uma reserva ecológica, proibindo-se qualquer edificação em toda a área. Ainda orientados pelos irmãos Maristas, um grupo de pais de alunos solicitou e conseguiu o uso desse terreno para o plantio de alimentos por métodos orgânicos. Eles o desbravaram e o cultivaram coletivamente. Em 1994, o grupo de ecologia social tornou-se responsable pela área e a mayor parte do terreno foi subdividido em lotes individuais medindo cerca de 500 m2 cada.

Desde então, as atividades do grupo promotor de ecologia social tornaram-se bem diversificadas. Além do cultivo dos lotes individuais, os membros do grupo se dedicam, coletivamente, à produção de húmus de minhoca. O conselheiro técnico do grupo – um jovem agrônomo que mora no bairro – tem esperança que esta atividade possa tornar-se uma fonte de renda para os membros do grupo. A venda de húmus de minhoca ainda não permite a distribuição de valores fixos aos membros, e atualmente preferiu-se a criação de um fundo mútuo do qual os membros podem tomar empréstimos em caso de necessidade (doenças, morte na família etc.). De 1994 a 1998, o grupo obteve subvenções de uma fundação privada mexicana e da embaixada do Canadá para desenvolver suas atividades.

Além disso, os membros do grupo de ecologia social recuperam os resíduos orgânicos que sobram nas mercearias e mercados do bairro. Eles sensibilizam a população com relação a suas atividades promovendo atividades ligadas à problemática ambiental. Eles também dão cursos de horticultura biológica para “enseignants”, aos pais e aos alunos das escolas maternais e de ensino fundamental instaladas nas vizinhanças. Hoje é comum encontrar-se pequenas hortas nessas escolas.

O grupo trabalha também em colaboração com outros integrantes do COCOMI. Por exemplo, em conjunto com o grupo de educação, que se dedica principalmente à alfabetização de adultos, foram organizadas sessões de formação em horticultura para jovens “décrocheurs”. Além disso, os membros do grupo ensinam àqueles da clínica comunitária de saúde a reconhecerem plantas tendo propriedades curativas, enquanto aprendem com eles a transformá-las em produtos medicinais. Enfim, eles compartilham com as mulheres que administram o bazar comunitário os conhecimentos adquiridos sobre os benefícios de certos “denrées” pouco valorizados pelo mercado (como a soja e o “amaranto”) e essas então aparecem a seguir sobre o “comptoir” do bazar.

O grupo de ecologia social está organizado em bases democráticas. As decisões que têm relação com o conjunto de membros são tomadas por consenso em reuniões a cada quinze dias. Todos os membros são elegíveis a postos de direção. Um representante do grupo tem assento na reuniões da COCOMI. Seu funcionamento depende da solidariedade interna do grupo. Realmente, segundo a divisão do trabalho estabelecida, cada pessoa tem tarefas comunitárias a realizar (“brassage”, peneiramento do composto, ensacamento, supervisão das instalações [7]). São feitas freqüentes “corvées” nos fins de semana para “aménager” o terreno (por exemplo, por ocasião da construção de uma “serre” ou de reservatórios para conservar a água da chuva). Os residentes do bairro são convidados a participarem. Este tipo de “corvée”, nascido da tradição do “tequio” originário da província de Oaxaca, existia nas comunidades indígenas do México na época pré-hispânica.

As iniciativas trazidas pelo grupo de ecologia social contribuem para a promoção social dos indivíduos, à criação de uma economia popular solidária e à transformação da cultura política no bairro.

Então, no plano do reconhecimento social, nós notamos uma transformação importante nas casas de certos membros do grupo. Uma participante, antes tímida e retraída (ela não sabia ler nem escrever), atualmente tem prazer em mostrar aos jovens e a seus pais como cultivar um espaço reduzido, quais folhas e flores são comestíveis, quais as propriedades curativas das plantas, etc. Além de trabalhar como promotora da ecologia social, ela também é membro ativa do bazar comunitário. Essas mudanças não acontecem sem causar conflitos com seu marido e seus sogros.


No México, ainda é malvista uma mulher que se envolva com atividades públicas que a façam sair de casa regularmente (Massolo, 1998 : 195). Mas por nada deste mundo ela iria abandonar suas atividades comunitárias, por que foram elas que permitiram sua transformação.
38Um outro membro do grupo, de 50 anos de idade e há muito desempregado, integrou-se ao trabalho na esperança de aumentar sua renda. Ele reconhece que não se interessava pelos problemas da comunidade. Agora ele compartilha das preocupações com os outros, investe esforços em um projeto em comum e diz acreditar agora no potencial das ações coletivas.

O grupo de ecologia social representa também uma fonte importante de aprendizagem e de expressão da solidariedade. Como exemplo, uma das integrantes decidiu se unir ao grupo depois de ter estado gravemente doente. Uma vez curada, ela experimentou a necessidade de assumir uma tarefa que fosse útil para a comunidade. Ela sonhava com a possibilidade de abrir um pequeno comércio, mas, considerando que essa iniciativa lhe traria apenas benefícios individuais, ela preferiu se unir ao grupo para dar espaço a suas novas intenções humanitárias. Após somente alguns meses de participação, ela tornou-se promotora e representante do grupo junto à COCOMI. Ela é “fière” de suas novas funções e considera que está sendo realmente útil aos outros.

Através das lutas travadas, no decorrer dos anos, no movimento popular urbano, os habitantes de Miravalle adquiriram uma experiência política considerável. Novas formas de solidariedade surgiram nos grupos da COCOMI. Se a prefeitura quisesse retomar o terreno do CECEAMI, haveria grande reação, por que os membros consideram que essa perda seria uma forma de enfraquecer seus esforços de crescimento coletivo.

Esse projeto, como aquele das mulheres de Cuernavaca, se situa no prolongamento dos movimentos urbanos que objetivavam, em um primeiro momento, assegurar o acesso dos habitantes do bairro a terrenos para construir, à infraestrutura urbana, e aos serviços públicos.

Paralelamente às reivindicações dirigidas ao Estado, as atividades de auto-produção têm sido conduzidas para assegurar melhoramentos no espaço urbano e na habitação. Com a agricultura urbana, os grupos envolvidos alargaram seu campo de ação. Eles agora estão envolvidos com uma atividade produtiva, fonte potencial de renda, além de capaz de melhorar o meio ambiente de seu bairro. Essas iniciativas de economia social se inserem em um projeto de desenvolvimento local baseado nas necessidades e nos recursos locais, e estimulam a participação das mulheres na vida pública.

Promoção social, economia solidária e transformação das relações sociais

Cada uma das quatro experiências descritas acima é única. Além de suas diferenças, podem-se destacar alguns aspectos em comum que permitem caracterizá-los. Os dois primeiros, de tipo assistencialista, têm vários elementos em comum: 1) a busca de segurança alimentar; 2) a promoção da horticultura de subsistência no espaço doméstico; as famílias são as beneficiárias, 4) uma dimensão coletiva pouco importante, 5) uma intervenção quase sempre pontual; e 6) uma fronteira estanque entre a organização promotora e as pessoas participantes/beneficiárias.

Se essas experiências contribuem para o reconhecimento de certos indivíduos, elas também “réifient” ao mesmo tempo as relações assimétricas existentes. Por exemplo, as hortaliças produzidas em Tepoztlán[8] entram na cadeia informal de distribuição entre famílias aparentadas. Se considerarmos que a horta está associada ao papel doméstico feminino, e que “dar tudo às crianças” faz parte do papel socialmente indicado a suas mães, vê-se logo que ao invés de discuti-los, essa doação de hortaliças se insere muito “naturalmente” nas relações de gênero dominantes socialmente.

Em outras palavras, o trabalho de implantação dessas hortas é feita de modo a evitar as discussões políticas. Desse modo, os projetos têm sido “ciblés” em função da problemática alimentar e dirigidos principalmente para as mulheres e crianças, que representam as populações “em risco” com relação à segurança alimentar. As crianças tornaram-se assim o objeto de uma intervenção de tipo epidemiológica, que contribui para “piéger” as mulheres em sua posição socialmente subordinada, o que é um fato, paradoxalmente, eminentemente político. Realmente, as mulheres são encorajadas a produzirem alimentos para os membros de suas famílias permanecendo sempre no espaço que lhes foi socialmente atribuído.

Além disso, como já o sublinhamos, as pessoas participantes ficam dependentes da intervenção de “especialistas” que detêm o saber técnico e as “intrants” necessárias para a prática de uma pretensa «auto-produção». Nesse caso, as hortas tornam-se antes uma medida de “assistência” do que uma ferramenta de transformação real nas condições dos interessados. Isso reforça as conclusões de Labrecque (1997) sobre os projetos de desenvolvimento destinados às mulheres que contribuem para manter o statu quo nas relações sociais.

As outras duas experiências são de natureza bem diferente. Nenhuma está articulada ao redor da problemática da segurança alimentar, e a transformação das relações sociais de gênero faz parte dos objetivos visados por seus promotores. Elas estão firmemente ancoradas no meio, sendo que a organização coletiva precedeu a introdução dessas atividades produtivas. Nelas não existem os interventores especializados trabalhando pelo bem-estar de uma clientela «vulnerável». Essas duas experiências incluem um “volet” de empreendimento coletivo. A educação popular, aberta para a comunidade, nelas tem um papel fundamental. Os participantes são membros integrais da organização, que repousa sobre uma estrutura democrática, participativa e solidária onde todos têm os mesmos direitos e as mesmas obrigações.

Os projetos de hortas domésticas “rejoignent” um grande número de «beneficiários». Mas se pode duvidar de sua contribuição para melhorar realmente as condições de vida ou a instauração de relações sociais mais igualitárias. Quanto às iniciativas da agricultura urbana que se inserem em uma economia social, por que emergem de pequenos grupos já ativos na cena local, elas contribuem para a transformação da paisagem urbana e das relações sociais de gênero, e isso, favorecendo o desenvolvimento de atividades econômicas, comerciais e não comerciais, organizadas ao redor de redes locais e regionais. Essas práticas abrem, portanto, perspectivas novas para o desenvolvimento das comunidades.


Anexo

Tabela 1 - Agricultura urbana e desenvolvimento no México: elementos para a análise dos casos estudados.
(precisa capturar na internet)

Tabela 2 - continuação
(precisa capturar na internet)

Pesquisar o significado

Toutefois
Volet
Embauché
Rôdeur
Chapardeur
Coriandre
Courgette
D’autant plus
Échéancier
Bailleur
Néanmoins
Seau
Voulant
Retombée
Fierté
Franchi
Enseignant
Décrocheur
Comptoir
Corvée
Brassage
Aménager
Fiére
Réifient
Ciblé
Piéger
Intrants
Volet
Rejoignent


Bibliografia

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Notas

  1. As pesquisas realizadas no México no campo da agricultura urbana voltaram-se, até hoje, mais especialmente para os ambientes periurbanos e para as chinampas tradicionais. As práticas agrícolas e de criação de animas adotadas pelas famílias camponesas cujas terras foram incorporadas pela expansão urbana já foram objeto, já há alguns anos, de pesquisas e intervenções que visavam a sua adaptação ao meio urbano (TORRES LIMA, 1998 e 1991). Os chinampas constituem, por sua vez, um sistema singular de “maraîchage” cujas origens antecedem a invasão hispânica. Elas estão agora ameaçadas pela expansão da área metropolitana da cidade do México, daí o interesse dos pesquisadores de melhor conhecê-los a fim de projetar um modo de preservá-los (CANABAL CRISTIANI, 1997). Os projetos de introdução de atividades agrícolas “auprès” de populações urbanas empobrecidas, quer sejam trazidos por agências governamentais, ONGs ou por organizações populares, permanencem entretanto muito pouco pesquisadas e documentadas.
  2. Ver BOULIANNE (1999) para obter uma descrição completa dos resultados dessa pesquisa.
  3. Ver a tabela síntese incluída no fim do texto para se obter uma visão em conjunto das experiências descritas.
  4. Em espanhol, Centro de Investigación y Capacitación Rural A.C.
  5. Em Cuernavaca, as comunidades eclesiais de base estão firmemente envolvidas nas iniciativas locais. Esses grupos, inspirados na “teologia da libertação”, têm um programa político social-cristão que estimula a participação social.
  6. Trata-se de um cactus com folhas comestíveis utilizado na cozinha mexicana já no período pré-hispânico.
  7. Depois que as hortaliças começam a crescer, é preciso tomar conta constantemente, pois os roubos são muito freqüentes.
  8. O volume de produção das hortas em contenedores é muito fraco para gerar excedentes.