PROPOSTA DE TRABALHO COORDENADO ENTRE A
COOPERATIVA DE PRODUTORES E CONSUMDORES DE
ALIMENTOS, IDÉIAS E SOLUÇOES NATURAIS -
COONATURA E A PREFEITURA DO RIO DE
JANEIRO
Abril de 1979
A COONATURA, atualmente em fase de legalização, já
congrega cerca de 300 cidadãos moradores nesta Cidade, número que será
multiplicado tão logo esteja ela legalmente estabelecida e estruturada,
quando então iniciaremos uma campanha sistemática de divulgação de suas
propostas e de arregimentação de novos sócios.
Os 300 membros até agora cadastrados foram contatados
através de 2 matérias publicadas no Jornal do Brasil, uma iniciativa
pessoal de um casal de cidadãos. Quando estivermos organizados para
receber novos sócios, iniciaremos uma campanha com a ajuda destes 300
amigos e então certamente formaremos um grupo de milhares de membros. Como
temos um objetivo muito claro e preciso, e muito pertinente aos tempos que
vivemos, além de profundas e vividas noções de organização, administração
cultural, dinâmica de grupo, comunicação, psicologia social, etc., a
Cooperativa saberá atender as intenções e planos de seus idealizadores e
demais participantes.
Pensamos em organizar estas centenas de interessados em
comissões, grupos, células e núcleos de relativa autonomia, por bairros,
por escolas e faculdades, por atividades profissionais, áreas de
interesse, etc. Todos coordenados em níveis progressivos, organicamente.
Estamos também em contato com muitos grupos já existentes e organizados,
independentes, mas que se articularão conosco nos programas propostos pela
Coonatura. Entre eles contamos com a simpatia de movimentos tais como:
Lions e Rotary Club, Secretaria da Pastoral de Ação Comunitária da Igreja
Católica, União dos Escoteiros do Brasil, etc.
Entre as centenas de cidadãos que já nos procuraram,
existem profissionais, estudantes, professores e curiosos nos mais
diversos campos do Conhecimento, humanos, artísticos, biomédicos e
tecnológicos, o que nos permitirá propor e ativar programas nas diversas
áreas do espaço sóciocultural da Cidade. Nossa estrutura e nossas
propostas são tão atuais e manifestadamente puras que permitirão à
COONATURA congregar os milhares de cidadãos desejosos de colaborar no
trabalho imenso que as atuais e futuras condições de vida nesta Cidade nos
exigem realizar desde já.
Por entendermos que, dispondo de tal potencial coordenado
de experiências e de boa vontade, devemos trabalhar pela promoção da
qualidade de vida de nossos concidadãos, ajudá-los a compreender
seus/nossos problemas e orientá-los na busca das soluções, vem a COONATURA
entrar em contato com a Prefeitura desta Cidade, na qual habitamos e à
qual devemos tantas oportunidades, para propor conexões eficientes e
trabalhos em comum.
Sabemos que os fantásticos problemas e impasses com que
se defrontam a Cidade e seus habitantes só serão encaminhados a bons
termos. se os cidadãos mais conscientes e capacitados ajudarem além do
mero pagamento de impostos e da necessária - mas não
suficiente - denúncia das falhas da Administração. Os
problemas das megalópolis só serão ao menos atenuados quando todos os
cidadãos abandonarem a posição passiva de esperar soluções oficiais e
tomarem a frente dos trabalhos indispensáveis - naturalmente com o apoio e
orientação dos órgãos governamentais competentes.
ALCANCE DOS PROGRAMAS A SEREM IMPLANTADOS
1. Estimular o plantio de alimentos nas áreas urbanas,
suburbanas e rurais do município.
- Hortas caseiras: nos quintais das casas que,
principalmente nas zonas norte, suburbanas e rurais, ainda existem.
Haveria um coordenador em cada quarteirão ou micro-área para dar
assistência técnica e orientar os vizinhos para o plantio integrado de
hortaliças de modo que através de trocas, todo o microssistema ficasse
praticamente auto-suficiente em ampla variedade de legumes e verduras. O
coordenador transmitiria informações de sua área para as coordenações
regional e geral, e vice-versa. Organizaria encontros didáticos, com
material gráfico e audlo-vísual fornecido pela Coonatura, convidaria
especialistas em agricultura, alimentação, ecologia, cooperativismo,
artes e ofícios, saúde, etc. para proferirem palestras, etc.,
propiciando alargamento dos horizontes culturais e desenvolvimento do
espírito comunitário. Os coordenadores dos quarteirões ou micro-áreas
serão recrutados entre jovens e adultos que morem nos locais onde
atuarão, e participarão de cursos e encontros com coordenadores de
outras áreas para se atualizarem dos problemas e soluções encontrados
por seus colegas. Para ajudá-los, serão orientados no sentido de
formarem, com vizinhos e amigos, núcleos ou cooperativas regionais, de
produtos, serviços, cultura, construção civil, etc. Seu trabalho não
será remunerado em dinheiro, mas sim com produtos e com os méritos e
ganhos morais, prestígio junto à comunidade e junto à família, evolução
pessoal e melhoramentos ambientais e culturais em sua comunidade, todos
valores muito importantes para qualquer pessoa. Muitos grupos já
existentes, como os do movimento comunitário da Igreja, clubes e
associações de bairro, escoteiros, clubes de serviço, outros
agrupamentos filantrópícos e/ou religiosos, como os evangélicos e
espíritas, universidades, etc., fornecerão elementos capacitados e
dedicados à tarefa. Também nas favelas implantar-se-iam projetos
semelhantes. Naturalmente aqui haverá problemas específicos devidos à
carência maior de espaço e de informação de que padecem as populações
marginalizadas e desfavorecidas. Mas - até por isso mesmo -, urge
iniciar logo, também nelas, o trabalho. Os condomínios serão
incentivados a destinar áreas para mini-hortas. Os empreendimentos
imobiliários de maior vulto - que manejam grandes áreas verdes -
serão convidados a reservar espaços para o plantio de hortaliças,
galinheiros, etc. Nos apartamentos de cobertura e terraços, será
estimulado o plantio de mini-hortas, em caixas de madeira ou cimento.
Nos apartamentos, em pequenas caixas, será estimulado o plantio de pelo
menos temperos com propriedades medicinais e nutricionais, como salsa,
cebolinha, etc. Aqui, o cultivo de hortaliças, sem pretender a tão
desejada auto-suficiência, terá antes um sentido didático e de lazer, e
até terapêutico, permitindo um contato maior das pessoas com as plantas,
de modo mais dinâmico que o mero cultivo de plantas ornamentais, já
sintomático do desejo de reaproximação com a Natureza, mas ainda incapaz
de aprofundar a relação de homens, mulheres e crianças com o fenômeno
maravilhoso da autoprodução de nossos próprios alimentos.
- Hortas públicas: serão destinadas áreas - onde
estiverem disponíveis - para o cultivo coletivo e voluntário de
hortaliças. A horta pública poderá ser dividida em parcelas para cultivo
familiar ou individual, ou poderá ser cultivada em conjunto, com a
produção sendo distribuída de acordo com critérios estabelecidos entre
quem participou dos trabalhos. Nas grandes cidades americanas e
européias, como Nova York, Los .Angeles, Londres e Zurique, já existem
com grande sucesso hortas semelhantes, até com fila de espera para quem
nelas deseja participar, e propiciando substanciais economias no
orçamento doméstico - item alimentação - além de outros benefícios,
pessoais, familiares e sociais. Também nas praças e parques públicos do
Rio poderão ser instaladas pequenas ou grandes hortas didáticas, onde as
crianças, sob a orientação de coordenadores, aprenderão a plantar e
descobrirão de onde procedem seus alimentos.
- Hortas escolares: será estimulado o plantio de hortas
nas escolas e faculdades. Como atualmente quase não há mais nelas
o espaço desejado, outras áreas livres nas proximidades poderiam serão
destinadas aos trabalhos voluntários dos estudantes, fora de seu horário
escolar e nos fins de semana. A produção seria dividida entre os
participantes para consumo junto às famílias.
- Hortas instítucíonais: nas fábricas, grandes empresas,
quartéis, hospitais, penitenciárias, etc.
- Roças públicas: aqueles interessados em participar do
plantio de outros gêneros, como feijão, arroz, milho, cana, mandioca,
inhame, batatas, frutas, etc., poderão fazê-lo em áreas públicas ou
particulares para este fim destinadas. Conforme as dimensões dos
terrenos e da produtividade, os produtos podem ser para o
autoabastecimento, total ou parcial, ou pode permitir a venda de
excedentes.
- Produção local de adubos orgânicos de alta qualidade.
Com a ajuda do coordenador de microárea, serã identificadas todas as
fontes intensivas de materiais orgânicos "limpos" que podem ser
transformados em adubo, que serão coletados antes que se misturem com
materiais inorgânicos e se tornem "sujos". Assim, serão localizadas
fontes como mercadinhos e quitandas, feiras-livres, restaurantes,
estabelecimentos que trabalham com sucos, caldo de cana etc., empresas
processadoras de alimentos, etc. Os materiais coletados devem ser
"compostados" misturados com palhas de capinas, aparas de grama e folhas
varridas - e como o lixo das cozinhas dos moradores participantes - de
modo a formarem montes que se transformarão, após dois meses, em
húmus. Essa atividade necessita de um esquema de transporte desses
materiais para onde estão as hortas e os locais de "compostagem", que
pode ser atendido por uma picape cedida pela Prefeitura, ou com recursos
locais (carroças, carrinhos-de-mão etc.) Na verdade, os alimentos
que a agricultura urbana pode produzir dependem da qualidade e
disponibilidade desses adubos orgânicos de alta qualidade, produzidos a
partir dos resíduos disponíveis na comunidade. O adubo do lixo produzido
nas grandes usinas de compostagem devem ter outra utilização que não as
hortas, pois apresentam diversos tipos de contaminação e
riscos.
2. Levar à população
alimentos de maior qualidade biológica, por menores preços.
- Aproveitar a organização implantada em cada
quarteirão, conjunto residencial, favela, condomínio, cada região
administrativa, para oferecer aos interessados, de modo cooperativado,
os alimentos produzidos em áreas mais distantes e no interior do estado,
de modo a evitar a cadeia de intermediários.
- Estimular o consumo de cereais integrais, hortaliças
naturais, mel, frutas e laticínios, informando de seus benefícios e
ensinando receitas deliciosas, nutritivas e saudáveis.
- Reforçar o espírito comunitário, propiciando aos
consumidores um papel mais ativo na localização das fontes produtoras de
alimentos; na escolha do que comprar, na negociação dos preços,
transporte, armazenamento e distribuição dos mantimentos;
3. - Ampliar e aprofundar a consciência das
populações em relação a seus problemas, desejos e soluções, pesquisando e
experimentando formas de ação conseqüentes:
- Promover encontros dos moradores das diversas áreas
para discussão coletiva de seus problemas, equacionamento das propostas,
providências e atitudes concretas para resolvê-los.
- Formar grupos de estudo para aprofundamento dos
conhecimentos em áreas de interesse social tais como: ecologia,
agricultura, alimentação, saúde, educação, habitação, saneamento,
etc.,
- Transformar o espaço das hortas e roças comunitárias
em centros de informação e cultura, editando boletins, promovendo
minishows com grupos locais de música, poesia e teatro amador, venda de
produtos naturais e artesanais, sempre relacionados ao interesse
ambiental e comunitário.
- Propiciar o afloramento de novas lideranças,
preparadas para exercerem as "artes democráticas" do trabalho em equipe,
do levantamento das necessidades, da elaboração de projetos, da captação
de recursos etc., e capazes de encaminhar soluções participativas e
efetivas para os problemas de suas comunidades.
As dimensões de tal projeto comunitário podem parecer ambiciosas
ou excessivas, porém sabemos que são até ínfimas diante da amplitude dos
problemas atuais e futuros de uma megalópolis com mílhões de habitantes.
Este trabalho será, no entanto, o início da ação coletiva e consciente que
a população do Rio de Janeiro terá que empreender para, progressivamente;
ir se familiarizando com as alternativas que existem para sua miséria
social, doenças, violência, poluição, degradação do ambiente e péssimas
condições de vida que no momento experimentam.
A Coonatura sabe como estimular tal movimento dos
cidadãos - como chamá--los e organizá-los. Seus membros - hoje quase 300 -
estão desinteressadamente (do ponto de vista pecuniário) dispostos a
empreender tal ação exemplar e inédita até em termos internacionais.
Entendemos mesmo que já devíamos ter começado há mais tempo. Porém será
nesses próximos 5 anos, na atual administração portanto, que tal projeto
deverá ser implantado. Se se passarem mais alguns anos sem a implantação
de ações comunitárias de amplo alcance, a situação se deteriorará a tal
ponto que, em 1984, por exemplo, melhor será morar bem longe daqui - pois
o Rio estará então mergulhado em um caos de violência, poluição, miséria e
insalubridade para nós inimaginável e certamente irreversível.
Para que a Coonatura possa implantar seus projetos, são
necessários, além dos quadros humanos, lideranças e organização, também
recursos e equipamentos. Como a maioria de nossos quadros está disposta a
trabalhar como voluntários, os recursos aplicados terão seus efeitos
multiplicados. Estes recursos serão sempre modestos diante dos resultados
alcançados. Além disso, por se tratar de ações comunitárias das quais
resultarão produção real de alimentos etc. , o programa poderá tornar-se
auto-suficiente.
A Coonatura está firmemente desejosa de ajudar a Cidade a
resolver seus problemas - que são os nossos, seus habitantes. Se da
Administração municipal, estadual e federal, obtiver compreensão, apoio e
recursos, multiplicaremos os resultados de nossos esforços. Se não, nem
por isso desistiremos - estamos conscientes do compromisso que assumimos
com os filhos que pusemos no Mundo, de nossa responsabilidade com os
filhos e netos deles. Portanto prosseguiremos sozinhos, ainda que com
menor presteza e maiores dificuldades iniciais.
Sugestões para que iniciemos logo uma ação conseqüente e
de grande impacto social:
- Inclusão, na equipe da Administração Municipal, de
Joaquim Moura, organizador inicial da COONATURA, para que, possa
dedicar-se mais integral e eficientemente aos trabalhos.
- Propiciar às lideranças da Coonatura o acesso
indispensável às Secretarias e equipes do Governo municipal nas áreas
críticas: agricultura, abastecimento, meio ambiente, saúde, educação,
cultura, comuni-cação e assistência social, às administrações regionais,
etc., para que possamos integrar uma ação coordenada de centenas ou
milhares de cidadãos capazes e dedicados ao esforço da Administração do
Município.
- Colocar à disposição dos trabalhos os equipamentos
necessários: um ou dois veículos utilitários cídade/campo, acesso à
máquina de escrever elétrica, mimeógrafo, xerox, impressoras maiores
para publicações maiores, local para reuniões das lideranças, telefone,
etc.
Todos os trabalhos serão
progressivamente desenvolvidos para evitar despesas sem resultados
imediatos e para gerar cuidadosamente experiência, sem risco de fracassos
desnecessários e comprometedores. Estamos habituados, há anos, a obter o
máximo de resultados com um mínimo de recursos - e a COONATURA pretende,
trabalhar desde logo, e cada vez mais, com recursos próprios gerados pela
ação dos cidadãos interessados. Entendemos também que, se pretendemos
estimular os munícipes a buscarem o máximo de auto-suficiência possível,
devemos ser nós os primeiros a dar o exemplo, nos auto-financiando e
deixando os recursos públicos, tão escassos, disponíveis para áreas de
interesse social mais carentes.
Rio de Janeiro, 9 de abril de 1979 Pela COONATURA |