Programa de Gestão Urbana
Coordenação Regional para América Latina e Caribe

“Otimização do uso de espaços vazios para Agricultura Urbana através de planos participativos, planificação e gestão para promover a segurança alimentar e governabilidade participativa municipal"
Governador Valadares, Brasil - julho/outurbro de 2003


Ivana Cristina Lovo – Universidade Vale do Rio Doce
Zilá Raquel Pereira Costa – Doce Rio Consultorias

Introdução

O projeto “Otimização do uso de espaços vazios para Agricultura Urbana através de planos participativos, planificação e gestão para promover a segurança alimentar e governabilidade participativa municipal” foi realizado simultaneamente em três cidades da América Latina e Caribe: Governador Valadares (Brasil), Rosário (Argentina) e Cienfuegos (Cuba), como uma ação de integração e colaboração entre os três municípios e entre entidades locais, incluindo o Poder Público e entidades da sociedade civil, em parceria com o Programa de Gestão Urbana para América Latina e Caribe (PGU / ALC), do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (UN-HABITAT), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP), o Centro Internacional de Investigações para o Desenvolvimento (CIID/IDRC) de Canadá e o IPES – Promoção do Desenvolvimento Sustentável.

O processo de estudo em Governador Valadares se estruturou com base em metodologias de investigação e (intervenção) ação, percorrendo distintas etapas que se articulam. A equipe de parceiros locais contou com a participação do Poder Público através da Secretaria Municipal de Planejamento, Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Agricultura e Abastecimento e Secretaria Municipal de Obras, e entidades da Sociedade Civil: a Universidade Vale do Rio Doce, Pastoral da Criança, Associação das Hortas Comunitárias e Associação Habitacional de Governador Valadares. Juntos, os parceiros se articularam e distribuíram tarefas com a finalidade de cumprir os objetivos do projeto que eram:

  1. Identificar e documentar formas e métodos para incluir a Agricultura Urbana na planificação física municipal e no ordenamento do território;
  2. Desenvolver e validar um marco facilitador para inserção da Agricultura Urbana na planificação física e ordenamento territorial da cidade, facilitando o acesso dos pobres urbanos a espaços peri-urbanos e intra-urbanos;
  3. Fortalecer a capacidade de reconhecimento dos atores municipais e urbanos sobre a importância da inclusão da Agricultura Urbana na planificação física e no ordenamento territorial.

Metodologia

A primeira etapa consistiu em um levantamento de informações existentes sobre a cidade e o tema de interesse do projeto. Nesse processo se destacam os documentos: cadastro municipal; estudos sobre a habitação e o Plano para redução da pobreza localizados na Secretaria Municipal de Planejamento; o Estudo e o Plano de Desenvolvimento Rural Sustentável realizado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento; o cadastramento da saúde realizado pelo Sistema Único de Saúde, coordenada pela Secretaria Municipal de Saúde; e informações sobre o Sistema de Coleta de Lixo Urbano, administrado pela Secretaria Municipal de Obras e Serviços Urbanos. Além disso, utilizou-se os dados estatísticos do Instituto Brasileiro de Pesquisas Estatísticas (IBGE). Todas as informações levantadas constituíram a base de estruturação da etapa participativa e da etapa de estudo dos espaços físicos.

Na segunda etapa, foram definidas as tipologias para caracterizar os espaços urbanos com potenciais para serem usados com Agricultura Urbana dentro da realidade de Governador Valadares e também foram definidas as áreas de abrangência do projeto. Como critério se buscou representar: espaços urbanos, peri-urbanos e urbanos rurais (conhecidos como distritos), a situação sócio-econômica dos moradores e o tempo de ocupação das áreas.

Através do Sistema de Informação Geográfica (SIG) e do banco de dados do Cadastro Municipal foi possível construir os mapas caracterizando as distintas áreas estudadas no projeto e o mapa do setor urbano com a definição das tipologias com potencial para agricultura urbana.

O contato com a população das áreas de estudo teve como base as técnicas de Diagnóstico Rápido Participativo para Agricultura Urbana (DRPAU). O DRPAU teve início com a capacitação dos agentes onde foram definidas, participativamente, as técnicas de DRPAU a serem empregadas. Realizada essa capacitação com os agentes, passou-se para o primeiro contato com os moradores das áreas de estudo.

Esse contato realizou-se de duas maneiras: um encontro para levantar as informações através das técnicas escolhidas e outro encontro para dar retorno à comunidade das informações específicas sobre o seu bairro e então concluir os principais problemas para a prática de Agricultura Urbana (AU) nessas áreas.

Para finalização do processo, foi realizado o Encontro Municipal de AU, com a participação de representantes das áreas estudadas e de outras entidades municipais afins a AU. O objetivo desse encontro era discutir os obstáculos e soluções apontadas pelos moradores das áreas de estudo e levantar propostas para a implementação de políticas públicas no município de Governador Valadares para estimular a prática de AU

Uma terceira etapa consistiu do estudo estatístico para levantar a realidade da AU em Governador Valadares. O primeiro levantamento realizado na cidade de Governador Valadares teve como objetivo geral estimar o número de domicílios que praticam a AU. Para isso, recorreu-se à dois cadastros realizados no ano de 2002 por duas secretarias municipais: ao cadastramento realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) via Secretaria Municipal de Saúde que possuía informações sobre área verde, plantio e os tipos de culturas que existiam em cada domicílio; e ao cadastro da tarifa de lixo realizado pela Secretaria Municipal de Obras e Serviços Urbanos (SMO) que levantou o número de domicílios existentes em cada bairro da cidade. Para isso, estabeleceu-se uma faixa amostral que variava entre 35 a 45% dos bairros existentes em cada classe. A porcentagem escolhida para levantar as informações dos bairros variava de acordo com a quantidade de domicílios que cada bairro possuía.

O segundo levantamento teve como objetivo subsidiar a análise qualitativa e quantitativa dos dados referentes às características sócio-econômicas das famílias envolvidas na AU. Neste segundo momento, foram selecionados alguns lotes de moradores das zonas em estudo, incorporando ainda a representação de lotes levantados na pesquisa do SUS, considerando uma amostra de 10% dos mesmos. Os critérios para a seleção dos lotes foram o gênero, geração, finalidade da produção, a classificação sócio-econômica e a quantidade de domicílios existentes por bairro. Foram visitados 88 lotes, 32 nos bairros enfocados no projeto e 56 em bairros relacionados à pesquisa do SUS.

Um estudo complementar sobre o uso de ambientes aquáticos foi realizado com base nas técnicas de DRP.
Foi possível quantificar a produção e, mediante a uma pesquisa técnica e de mercado, determinou-se o valor da produção anual da AU incluindo a produção nos quintais e com a pesca.

Resultados

Para a realidade de Governador Valadares destacam-se as tipologias: Lotes vagos (2053 hectares); Áreas de
quintais (503 hectares); Espaços livres em áreas institucionais (28 hectares - cadeia, saúde e escolas);

Espaços livres em áreas institucionais privadas (452 hectares), Faixa de domínio de Via Férrea (71 hectares); Faixa de domínio de rodovias (238 hectares); Margens de Rios e córregos (273 hectares); Áreas verdes Desocupadas (119 hectares); Áreas institucionais desocupadas (24 hectares); Lagoa/ lagos (15 hectares relacionados a 8 (oito) lagoas urbanas); Área total do Rio Doce na Cidade (1.647 hectares), Ilhas do Rio Doce acima de 1000 m2 (303,2 hectares, 189 ilhas) e a Área de Preservação Permanente - Pico do Ibituruna (6.600 hectares).

A área definida por lei que abrange o perímetro urbano de Governador Valadares corresponde a 15.380 hectares. Mediante estudo das tipologias, detectou-se um potencial de 37% de área do perímetro urbano com potencial para práticas de AU. Destacam-se os espaços privados representados por lotes vagos e quintais com 17% e áreas de empresas acima de 3.000m2
representando 2,93%. Considerando os espaços públicos há um destaque para os espaços vazios nas margens do Rio Doce e córregos urbanos, com 1,78%, as áreas de ilhas do Rio Doce acima de 1000m2, correspondendo a 1,9%.Outro destaque importante para Governador Valadares nas tipologias estudadas trata-se dos ambientes aquáticos, representados pela lâmina
aquática do Rio Doce dentro do perímetro urbano e o espaço representado pelas lagoas urbanas, um total de 08 lagoas, ambos representam 11% do perímetro urbano.

Vale a pena destacar para a realidade urbana do município a Área de Preservação Ambiental representada pela APA do Ibituruna que corresponde a 42,91% do perímetro urbano.

Para o público que compareceu às reuniões nos cinco bairros estudados, onde foram aplicadas as técnicas de DRPAU, temos uma média de 90% do público masculino que pratica AU e 94% para o público feminino. Considerando que a presença do público feminino nas reuniões dos bairros foi em média de 70% enquanto que o masculino ficou com média de 30% da participação, podemos concluir que a prática da agricultura urbana está mais presente entre o público feminino. Esta informação confere com o dado de quem se dedica às práticas de AU em que, a figura da mãe é apontada com maior freqüência nas respostas do questionário. A finalidade da agricultura urbana apresenta-se na seguinte ordem de freqüência, considerando as respostas da pesquisa: primeiro o auto-consumo, seguido da saúde, recreação, doação e, por fim, a geração de renda.

Os estudos estatísticos nos mostram que a AU é uma realidade em Governador Valadares, porém sendo exercitada dentro de uma rede informal de relações. Dos 59.078 domicílios presentes no setor urbano do município, incluindo os domicílios do Distrito de Baguari, 19.241 tem alguma atividade de AU. As atividades citadas no cadastro do Sistema Único de Saúde, consideradas como AU são, em ordem de freqüência: Fruticultura (10.649 domicílios), jardinagem (7.201 domicílios), horticultura (2.543 domicílios) e medicinais (1.642 domicílios). Com o levantamento do DRPAU e as visitas ao lotes foram observadas ainda, a prática de AU relacionada com culturas perenes e criação animal, no entanto, a amostra observada não é representativa para o município.

Como resultado da valoração da produção de AU em Governador Valadares, considerando a qualificação e quantificação da produção nos quintais, foi verificado que a produção anual da AU chega a um valor de R$ 11.543.412,46 que corresponde a 1,14% do PIB Municipal. Incorporando o valor da atividade de pesca, R$ 263.000,00, há um acréscimo na renda propiciada pela atividade de AU no Município, que passa à R$ 11.806.412,46 que corresponderia a 1,17% do PIB de Governador Valadares. Esse valor é o que chamamos de PIB social. PIB social por ser uma renda vinculada a atividades exercidas no contexto de uma rede de relações informais, praticada entre as pessoas na relação familiar, de vizinhança e de grupos dentro do território do Bairro, e, no caso da pesca, uma atividade que extrapola a rede local do bairro, porém que se mantém dentro das relações informais de comercialização que não sofre nenhum tipo de taxa de impostos.

Comparando com outros valores que compõe o PIB Municipal, temos uma visão melhor da importância dessa renda social. O setor de prestação de serviços corresponde a 65% do PIB, o setor industrial 33% e as atividades de agricultura, pecuária e exploração de minerais correspondem a 2%.

Como principais obstáculos apontados durante do Encontro Municipal de AU para o desenvolvimento da AU em Governador Valadares temos a dificuldade de acesso aos espaços com potencial para AU, o alto custo do uso de água tratada para as práticas de AU, a pouca orientação técnica disponibilizada pelo poder público, a dificuldade para disponibilizar insumos para a prática de AU, a pouca organização das pessoas e grupos para o exercício da AU e o pouco reconhecimento do poder público em relação à atividade da pesca.


Plano de ação participativo visando a inclusão da AU nos programas e políticas municipais e no processo de ordenamento territorial
Governador Valadares / Julho de 2003

Este documento é resultado do Encontro Municipal sobre Agricultura Urbana, atividade prevista para a fase final da primeira etapa do projeto: “Otimização do uso de espaços vazios para Agricultura Urbana através de planos participativos, planificação e gestão para promover a segurança alimentar e a governabilidade participativa municipal”.

No Encontro Municipal de Agricultura Urbana participaram representantes dos bairros em que o estudo foi realizado e com representantes de entidade do Poder Público e sociedade civil que atuam em afinidade com AU.

Neste encontro também se viabilizou a participação respeitando-se as relações de gênero e geração.

As opiniões contidas no documento são de exclusiva responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente os critérios do Programa de Gestão Urbana, do Centro das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos, nem do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

PLANO DE AÇÃO

Objetivo geral:

Incluir a Agricultura Urbana nas estratégias de Políticas Públicas no Município de Governador Valadares:

  • Criar um fórum Municipal da Agricultura Urbana, envolvendo as Associações Comunitárias de Bairros, os Conselhos Municipais que tenha relação do AU, entidades não governamentais envolvidas com o tema de AU
  • Redução de Impostos direcionados para estimular o uso de lotes vagos para plantações
  • Legalizar o uso de espaços institucionais e verdes para práticas de AU.
  • Viabilizar Lei que estimule o cidadão a deixar um espaço no seu lote para plantios
  • Organizar o espaço da cidade para abranger além de áreas institucionais e verdes também áreas para Agricultura Urbana, incluindo áreas nos bairros específicas para a criação de animais.
  • Viabilizar acordos específicos entre prefeitura, proprietários e outras instituições públicas para disponibilizar áreas particulares e públicas para serem usadas com AU.

Viabilizar o acesso a áreas urbanizadas públicas e privadas para a prática de AU

  • Estimular formas diferenciadas de plantio para os diferentes tipos de espaços.
  • Redução ou desconto nas taxas de água e do Imposto Territorial Urbano para quem pratica agricultura urbana em seus quintais
  • Elaboração de projetos com a participação da comunidade
  • Garantir a distribuição de ferramentas, material de irrigação e sementes para as hortas comunitárias e escolares
  • Viabilizar um programa de distribuição de mudas e sementes pela Prefeitura
  • Incentivar a produção de composto orgânico com restos de lixo orgânico
  • Incentivar o uso de restos de sacolões, feiras livres e do Ceasa para a criação de pequenos animais
  • Ampliar a estrutura de assessoria técnica rural e urbana da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Agricultura e Abastecimento para possibilitar atender a novas demandas.
  • Viabilizar recursos para possíveis financiamentos a atividades de AU.
  • Estimular a organização de grupos para o beneficiamento e comercialização de produtos da AU

Pouco incentivo para prátivas de agricultura urbana

Viabilizar recursos e formas de incentivo para ampliar as atividades de AU

  • Viabilizar espaços nas feiras livres para a comercialização de produtos da AU
  • Construções de poços artesianos patrocinados por empresas ou pelo poder público
  • Não cobrar o uso de água utilizada em hortas comunitárias e práticas de AU em lotes vagos
  • Trabalhos e conscientização da comunidade para economizar e não desperdiçar água.
  • Estimular o uso de águas residuais para irrigação
  • Melhorar o abastecimento de água por parte do Serviço de Abastecimento de Água Esgoto do Município (SAAE).
  • Utilizar água das lagoas urbanas

Alto valor da água tratada para fins de AU

Viabilizar água com baixo custo para práticas de AU

  • Perfurar cisternas ou poços nas comunidades
  • Elaborar cartilhas sobre Agricultura Urbana
  • Promover capacitações gratuitas de cultivo de alimentos e plantas medicinais
  • Ampliar a orientação através da assessoria técnica da prefeitura
  • Parceria com a Univale, possibilitando o envolvimento de alunos na orientação técnica para as pessoas que desenvolvem AU
  • Estimular a troca de experiências entre os mais velhos e os mais jovens sobre práticas de AU
  • Viabilizar o acompanhamento da Vigilância Sanitária às
    atividades de AU para evitar riscos e contaminação

Pouca orientação para as pessoas que praticam AU

Ampliar o conhecimento das pessoas sobre AU

  • Estimular o uso de arte (Teatro) para incentivar a prática de AU
  • Estimular troca de experiências sobre AU entre os bairros da cidade, gerando um banco de informações sobre a AU