Agricultura
Urbana
Instituto Solo Vivo
Existe no mundo um triste
fenômeno que atesta o fracasso da Revolução Verde e de seus métodos
destruidores: 1 bilhão e duzentos milhões de pessoas sem acesso à
alimentação mínima necessária, dos quais 800 milhões passando fome
endêmica, inclinando-os à morte pela desnutrição e suas correspondentes
doenças. Os outros 4 billhões e meio de habitantes do globo conseguem
acesso à sua ração alimentar diária suficiente ou excessiva - meticulosamente
envenenada com resíduos tóxicos de pesticidas e/ou aditivos químicos
da indústria alimentícia. Os primeiros morrem de fome; os segundos,
de câncer e males circulatórios.
Mas existe um outro fenômeno para o qual o mundo não tem prestado
a devida atenção: 800 milhões de pessoas, em todo o mundo, se dedicam
hoje à Agricultura Urbana; e o número vem crescendo
aceleradamente.
É a FAO quem estima em 800 milhões o número de agricultores urbanos
do mundo, reconhecendo que esses agricultores já respondem por 15%
de toda a produção mundial de alimentos - uma produção muito mais
variada e nutritiva, não baseada apenas em cereais (para ração
para gado) e commodities agrícolas.
Em
que consiste, então, a Agricultura Urbana?
Ela
é um tipo de atividade agrícola desenvolvida dentro e nas margens
das cidades, em áreas que vão de um pequeno terreno de 50 metros quadrados
até fazendas com mais de 200 hectares.
Essa atividade envolve o plantio de hortaliças, frutas, grãos, ervas
medicinais e aromáticas, pequenos bosques, áreas de permacultura,
flores e ornamentais. Acontece tanto em cidades pequenas do terceiro
mundo, como no coração de megalópolis do mundo industrializado: Amsterdam,
Paris, Nova York, Los Angeles, Vancouver. Acontece no Brasil, com
importância, em Cachoeiro do Itapemirim, Rio Branco do Sul e nas capitais
Curitiba, Rio de janeiro e São Paulo. É estratégica em Havana, onde
tem 26.000 praticantes, em Moscou (20.000), em Philadelphia, em Kampala,
na cidade do México, Boston, Tirana, Nairobi, Bangkok, Perth, Sidney,
Toronto, São Petersburgo, Shangai, Montevideo, Lima, Buenos Aires,
Corrientes, La Paz. Está muito bem organizada e apoiada pelo governo
no Canadá, África do Sul, Austrália, Alemanha, Índia, China.
No Brasil, é claro, estamos dormindo em berço esplêndido. Em Chicago
há criações de cabras e abelhas em plena cidade. O mesmo acontece
em várias cidades da Inglaterra, onde até a criação de vacas e porcos
é permitida. Na cidade do México, a municipalidade tem autorizado
a criação de até 60 porcos em terrenos urbanos, desde que observadas
rígidas condições das normas de higiene. Na maior parte das cidades
e países citados, a atividade de plantio convive com a de criação
de animais, em plena zona urbana.. As autoridades sanitárias ditam
as regras e mantêm a fiscalização. Os criadores tratam de segui-las
e tudo funciona muito bem. Em Philadelphia, a Universidade local está
implantando um programa de apoio aos agricultores urbanos, que os
capacitará a desenvolver a piscicultura urbana, em tanques de moderna
tecnologia, com circulação e aeração, onde a produtividade chega ao
equivalente a 400 toneladas por hectare de lâmina d’água. Também o
cultivo de cogumelos vem sendo incentivado em Philadelphia pois, tal
como a piscicultura, presta-se ao estabelecimento de operações industriais
de processamento - o que agrega valor e gera ainda mais empregos na
área urbana.
E nós? Quando vamos despertar e sair do berço esplêndido?
| "A
Agricultura Urbana oficialmente sancionada e promovida pode se
tornar uma componente importante do desenvolvimento urbano e proporcionar
mais alimentação aos pobres urbanos. A Agricultura
Urbana também pode proporcionar produtos mais frescos e
mais baratos, mais espaços verdes, o esvaziamento de aterros
sanitários e a reciclagem do lixo doméstico".
|
Vantagens
que a Agricultura Urbana pode trazer para a cidade
- Geração
de renda para os produtores
-
Criação de empregos urbanos
-
Absorção de mão-de-obra migrante rural
-
Absorção de mão-de-obra adolescente
-
Oportunidade de trabalho para mulheres
-
Criação de segurança alimentar
-
Substituição de importações municipais
-
Reciclagem de lixo doméstico e urbano
-
Reciclagem de águas pluviais
-
Disponibilização de alimentos frescos
-
Disponibilização de alimentos mais baratos
-
Disponibilização de proteínas
-
Disponibilização de micronutrientes
-
Melhora do meio-ambiente urbano
-
Aprimoramento estético urbano
-
Fortalecimento dos mercados urbanos
-
Criação de agroindústrias (mais empregos)
-
Integração com a Agricultura Municipal
- Participação
em programas ASC
-
Prazer de cultivar e criar
-
Trabalho/Prazer para Terceira Idade
Agricultura
Urbana (AU) x Hortas Comunitárias
O
conceito de Agricultura Urbana é bem mais amplo do que a antiga idéia
de hortas comunitárias. Isso porque a Agricultura Urbana (AU) tem
sentido muito mais amplo do que aquele restrito à área única da horticultura.
A AU, em todo o mundo,
costuma ter outras expressões além da produção de hortícolas: produtos
como frutas, cereais, animais de pequeno porte, ervas medicinais e
aromáticas, bem como várias tipos de processados são resultantes da
AU.
Aproveitando os exemplos de milhares de cidades, em todos os quadrantes
do mundo, o modelo de exploração comunitária deve ser apenas um dos
que merecem atenção. Deve-se também incentivar o espírito empreendedor
de indivíduos e de famílias, assim como utilizar o imenso potencial
multiplicador que um tal projeto piloto irá possuir - não deixando
de acolher e dar orientação a indivíduos e famílias que venham em
busca de uma forma (talvez a única) de garantirem um mínimo de segurança
alimentar para si.
Nas experiências mais bem sucedidas de AU do mundo, as áreas ocupadas
vão desde terrenos de menos de 50 metros quadrados até áreas de mais
de 100 hectares, dentro das cidades. A exploração dessas áreas se
dá em diversas modalidades, desde áreas próprias, de uso individual
ou até empresarial, até - o mais comum - áreas arrendadas de particulares
ou cedidas em comodato ou licença especial por órgãos do poder público.
Essas áreas podem ser trabalhadas de forma individual (sendo, a maior
parte, para fins de segurança alimentar e pequena geração de renda
para a família) ou de forma coletiva; neste caso, a complexidade é
bem maior: ONG’s, poder público, cooperativas ou grupos informais
de indivíduos podem ficar à frente da atividade, tomando para si a
difícil tarefa de administrar os esforços e os resultados comunitários.
Os administradores públicos e as ONG’s, em todo o mundo, tem uma atuação
decisiva para o sucesso ou fracasso da AU. Oficiais de governo realmente
bem informados e capacitados a respeito de AU, costumam perceber não
apenas seu imenso valor para favorecer a segurança alimentar e a geração
de emprego e renda para os pobres urbanos, mas também as implicações
sócio-políticas dela decorrentes. Programas oficialmente bem apoiados
têm feito muito pela imagem positiva de governos municipais e estaduais,
uma vez que resolvem de fato prementes necessidades de uma parcela
da população que se torna muito numerosa. Os programas de AU, diminuindo
a saída de recursos para fora do âmbito local ou regional, ao mesmo
tempo que gerando novos postos locais de trabalho, exercem um efeito
multiplicador na circulação de riqueza local.
Além disso, as administrações costumam ser favorecidas por menores
gastos com coleta e transporte de lixo urbano, resíduos perecíveis
e águas pluviais; bem como por um enriquecimento das dietas locais
com o acréscimo de alimentos frescos e nutritivos, que são colocados
ao alcance dos produtores, dos trabalhadores em AU e de uma parcela
da população em geral - o que costuma rebaixar os gastos com saúde
pública e com socorro alimentar aos carenciados.
Agricultura Urbana (AU) e Agricultura
Municipal (AM)
Os
programas de AU bem administrados podem e devem ser integrados a programas
sólidos de Agricultura Municipal, em especial em programas municipais
de ASC - Agricultura Suportada pela Comunidade.
A
AU, desenvolvida dentro ou nas bordas da cidade-sede, deve ser pensada,
pelos administradores públicos e privados, como um conjunto de atividades
econômicas e sociais do município. Deve-se, portanto, saber equacionar
as necessidades estruturais e mercadológicas da AU face à sua integração
com a atividade agrícola rural, desenvolvida nas área rural do município
e, conforme o caso, da micro-região dominada pela cidade em foco.
A
administração dos programas de AU e de Agricultura Municipal fica
mais eficiente quando ambas as atividades são integradas e abrigadas
sob programas amplos de ASC - Agricultura Suportada pela Comunidade.
Nesses programas coordena-se o poder de compra da municipalidade,
de órgãos públicos estaduais e federais, de empresas e de grupos organizados
de consumidores - de forma a garantirem aos produtores de AU e AM
não só a pré-venda e o perfeito planejamento de produção, como, em
muitos casos, o fluxo de recursos financeiros prévios que libertam
os produtores da necessidade de endividamento bancário.
É
óbvio que programas integrados de AU e AM, englobados dentro de programas
de ASC, só podem dar certo se existirem indivíduos técnica e eticamente
capacitados a gerencia-los, com sólida experiência em ASC, AM e AU
e uma consciência individual e cívica que os façam imunes aos processos
de corrupção. A existência de um ou mais indivíduos assim gabaritados
faz a diferença entre o sucesso e o fracasso na consolidação dos programas
e todo o esforço deve ser exercido para garantir que essa segurança
profissional exista antes de se começar qualquer esforço oficialmente
amparado de AU e AM.
Um
outro ponto de grande tripé em que se apoiam esses programas é a existência
de uma unidade prática de transferência de tecnologia e treinamento
para produtores e funcionários. Trata-se aqui de modelos extremamente
práticos, desenvolvidos em curtos módulos na própria unidade de produção.
Um dos melhores exemplos pode ser visto na cidade de Vancouver, Canadá,
onde a Prefeitura mantém um conjunto de 12 hortos de compostagem,
com apresentações programadas semanais e livre visitação; esses hortos
servem para ensinar milhares de canadenses de Vancouver e de outras
cidades a fabricarem adubo orgânico a partir de lixo doméstico e resíduos
orgânicos urbanos, estimulando-os assim a praticarem uma saudável
agricultura urbana orgânica.
Agricultura Urbana e Agricultura Orgânica
No
mundo todo, Agricultura Urbana costuma ser sinônimo de Agricultura
Orgânica. Por diversas razões:
- O
uso de agrotóxicos em ambiente urbano, em áreas geralmente
pequenas ou médias, representa um grande perigo para a saúde
de todos: agricultores, vizinhos, transeuntes. O drift provocado
pelo vento ou pelas águas pode contaminar ambientes relativamente
distantes. Além disso, o risco para as águas urbanas é muito
grande.
- Por
sua notória capacidade de produzir muito usando um mínimo
de insumos externos e de consumo de energia, a Agricultura
Orgânica é preferível para os agricultores urbanos, geralmente
dotados de poucos recursos e sem acesso a crédito agrícola.
- Os
produtos orgânicos, por sua superior qualidade intrínseca
(sem resíduos tóxicos) e nutricional, têm ampla preferência
por parte dos consumidores. Como os mercados de AU costumam
ser, maioritariamente, mercados de venda direta ao consumidor,
os produtores orgânicos de AU têm vantagens de marketing
e agregação de valor.
- A
Agricultura Orgânica tem a reciclagem intensa como um de
seus princípios fundamentais; e isso é muito vantajoso para
a Municipalidade, por ajudar no tratamento dos resíduos
urbanos.
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Sistemas de irrigação
Um
ponto absolutamente crítico, crucial mesmo, da AU é a opção pelo sistema
de irrigação. Nas áreas muito pequenas, a irrigação costuma ser feita
com mangueiras conectadas diretamente à rede de abastecimento urbano.
Quando a área é maior, tal procedimento é impossível: o sistema é
extremamente ineficiente, o custo é proibitivo, e as companhias de
abastecimento não gostam de fornecer água tratada para uso agrícola,
cobrando tarifa reduzida. Recorre-se então à escavação de poços ou
ao tratamento de águas pluviais e de águas coletadas na área, durante
as chuvas.
O
tratamento de águas pluviais urbanas é um método muito interessante
e costuma ser incentivado pelas prefeituras, pois as livra de ter
que conduzir e tratar uma parte daquelas águas. Áreas urbanas onde
se pode fazer o uso de águas pluviais e seu tratamento biológico para
uso agrícola costumam ser maiores e mais bem estruturadas, servindo
as águas também para a piscicultura urbana.
Contudo,
qualquer que seja a fonte da água a usar, apenas um método de irrigação
é ideal para AU:
Irrigação
por gotejamento
Este
tipo mais moderno de irrigação é vantajoso para o agricultor urbano
porque:
-
Consome
um volume muito menor de água do que os sistemas de aspersão,
o que alarga o tamanho da área que pode ainda ser irrigada com
água tratada urbana.
-
Exige
menor investimento em bombeamento, podendo operar com bombas de
menor potência, o que costuma compensar o maior investimento em
tubo-gotejadores e caixas d’água.
-
Não
molha as folhas e frutos das plantas, diminuindo muito o risco
de moléstias fúngicas e bacterianas, que necessitam de ambiente
foliar úmido para prosperar. Além disso, ao não molhar a parte
aérea do vegetal, o gotejamento impede que as caldas de micronutrientes,
amino-ácidos e defensivos orgânicos, pulverizadas sobre o mesmo,
sejam arrastadas diariamente pela água de irrigação.
-
Evita
transtornos com vizinhos, transeuntes e veículos, quando aspersores
extremos jogam água vários metros nas ruas ou casas ao lado.
-
Permite
que o trabalho continue, enquanto se está irrigando. Com aspersão,
é meia hora de banho na certa.
-
Onde
não há energia elétrica economicamente acessível, o gotejamento
permite que se use bombas acionadas por cata-vento, que recalcarão
água durante muitas horas a custo zero de energia.
-
Feito
o recalque prévio, é possível irrigar na hora certa, mesmo que
esteja faltando energia elétrica.
-
A
operação é extremamente simples (abrir e fechar registros), acessível
até para crianças.
-
É
mais fácil fazer fertirrigação organo-mineral, sem qualquer desperdício
de nutrientes.
-
Tubo-gotejadores,
para gotejamento, são pouco interessantes, mas barras de PVC de
3"e 2", para aspersão, são muito interessantes: para os ladrões,
maior problema da Agricultura Urbana.
Importância
e perspectivas
É
preciso mostrar aos administradores brasileiros a enorme importância
da AU em outras partes do mundo; a quase totalidade deles simplesmente
ignora que existe AU lá fora. No entanto, dados da FAO mostram que
os agricultores urbanos abastecem 30% do consumo de vegetais em Kathmandu
(Nepal), 45% em Hong Kong, 50% em Karachi (Paquistão) e 85% em Shangai.
Na Asia 50% das famílias urbanas praticam AU, no Canadá e Estados
Unidos, 25%. Shangai produz 80% de todos os frangos que consome e
Hong Kong, até a gripe aviária, era totalmente auto-suficiente, produzindo
dentro da cidade - moderníssima - 100% de toda a carne de frango que
necessita.
Em
Moscou a AU é intensamente praticada; estimativas oficiais dão conta
de que em 1990 45% da população praticava alguma forma de cultivo
ou criação - e que em 1997 esse número havia crescido para 65%. Os
habitantes, além de cultivarem em terrenos urbanos pequenos ou grandes,
aproveitam normalmente a cobertura dos edifícios de apartamentos,
instalando áreas com hortaliças, morangos e até criação de pequenos
animais. Como se pode ver em Havana, Cuba, também os moscovitas costumam
cultivar parreiras de uvas nas próprias paredes de suas casas e prédios
residenciais.
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